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05/12/2011

As estrelas que me guiam

Ser artista é abrir a própria cova e dormir nela sorrindo todas as noites, vendo as estrelas chegarem todo dia e lamber-lhe a alma, os pés a boca, mas não deixar nem um rastro para a sua realidade do dia seguinte... Ah, se não há comida se inventa, se vira, cara! Seja um exímio cozinheiro, aprenda a fazer banquete com uma batata, um ovo ou dois ovos e uma cebola que sobrou na geladeira vazia e, quente por falta de luz!

Aprenda, seu filho da... de uma.

Ainda, finja toda noite que tua mãe ainda vive e toda manhã lhe trará um naco de leite quente, tirado fresco da vaca do seu peito... Sonhe, sonhe, seu filho da...

Ainda, se não bastar, poderás te encher de atitudes mais radicais, da raiz, se enfiando no lodo das coisas mais bestas desse mundo e gritar de lá que a vida é bela, linda, linda! Mesmo que alguém lhe enrabe com um pau (de madeira, viu!)...

E eu sei, continuo sabendo, a vida bela é a que me guia, na sombra ou no sol. Na alegria ou na tristeza o sonho, o sonho de mais uma batata, uma cebola, um pé de alface, um bife... Ah, se possível uma mulher me sorrindo nos lábios da boca; d’uma de dizer coisas pra se saber da vida? A vida da arte, da música, do teatro e do cinema. Ah, a vida de imitar a gente mesmo, dentro ou fora dela.

Ah, sim, se for possível, mande-me um mar de presente, quando fores ver o horizonte que não visitaste ainda. Confio em você. Beijos.

04/09/2011

As ossadas da cultura (manifesto de ação bem pessoal)



vamos cortar a cultura sangrar a cultura furar a cultura foder a cultura comer a cultura cortar todas as possibilidades da cultura disseminar tudo que possa diminuir a sua importância e arrancar cada olho de artista paupérrimo e tirar-lhe cada eixo de olhar estético usurpar-lhe cada biscoito fino que tente fabricar foras das alçadas (ou ossadas) oficiais e por fim deixar que flua somente as teses dos tolos e das mídias usurpadas pelo poder econômico dos comandos das torres de dólares e ouros imaginários e finalmente renda-se aos fáceis porque assim continuaremos todos consumindo apenas consumindo tão apenas sem pensar sem incomodar àqueles que nos querem rasos rasteiros apenas consumindo sem nenhum exercício de reflexão de pensamento de imaginamento e nada mais precisa-se mesmo sem imaginar sem imaginar sem imaginar nada mais precisa-se mesmo nada mais e assim continuaremos todos buscando o pequeno o miúdo para que eles continuem nas torres de comando

23/07/2011

Coisa de coice

A primeira vez do cavalo eu nem o vi tão educado lá, naquele minguado espaço do curral, não, não o vi. Cheguei mesmo a cheirar a região daquela parte traseira, muito suada sempre, onde as moscas adoram sentar. Talvez seja o lombo desse animal uma espécie de praia para moscas e outros insetos. Um cavalo será sempre cavalo, num ver-se de perto ou longe? Sim e não, segundo minha modesta cultura acerca dessa animalesca linhagem. Mas o importante que eu queria dizer, seria sobre o coice dele, o chute, a lambada, algo assim bem fora do normal entre seres que não possuem corpo tão avantajado como eles. E coice de cavalo pesa pra cachorro, não pesa?

Voltando ao lombo.

04/07/2011

Mais uma cena de comuns

Fui outro dia comprar um frango assado numa esquina perto de casa; o moço que cuidava daquela TV de cachorro, como muitos dizem dessa máquina, cantarolava, pegava, cortava, girava, escolhia, oferecia e coisa e tal: qual o senhor quer? Sim, o mais tostado, o mais de assim o menos de mais, o ali, o de o lá, o de o cá. Não, quero aquele, ou esse, ou outro lá de baixo, ou... Espera, me dê aquele de jeito já saindo do espeto, bem fácil pra você, vai. Nada, senhor, qualquer um aqui é qualquer. Mandou, eu pego, corto, pico, embrulho, ponho batata, farofa e ao gosto do freguês, embrulho!

E papo de vem e papo de vai, nisso chega uma senhorinha já bem senhora por demais de uns setenta e poucos da vida, tanto no falar de seus trajes, ou mesmo do enrugado dos seus olhos nos vendo ali, juntos. Todos personagens daquela tela de domingo.

Oh, e eu corto aqui, justo, pra aumentar o meu espaço de escrita e demorar mais o leitor em mim, vendo-me neste decifre de devorar franguito em domingo frio de SP - Para estranhos de fora, não se imagina o que é ir à feira em SP num domingo, sem sol, muito vento entrando por todos os cus da gente. Não se imagine. Não se imagina.

Mas volto à cena com dona senhora, o rapaz e os frangos. Imagine-se, então, creia, veja e leia. Do povo para o povo. E só.

Eu gosto de palavra de todo jeito, saída ou não de boca, escrita, calada, sussurrada, seca, torta, molhada, caída, deitada, em pé, subindo, descendo, pela metade, inteira, ruída, carcomida, cingida, não importa, palavra é palavra, e se nela há coisas a mais, tanto melhor. Dito o disso, e digo, da cena posta comigo e eles lá:

- Como vai a senhora?! Tudo bem, Dona Malfada?! - Naquele instante a senhorinha botou voz entre mim e aquele rapaz no pleno do seu disponível:

- Não, Mafalda.

- ... Dona Mafada (risos)

- Ma-fal-da - Sem risos, quase séria, mas não brava, não mesmo, e dando corda àquele enforcador de nomes.

Ela tinha dois botões de olhos bem vivos, pretinhos, piscantes, e do seu sério num querer sem querer rir, não ria, mas nos deixava numa quase dúvida, se queria ou não o rir. Mas certo estou que gostava de nossas atenções, nossos holofotes pra si, curvando nos seus setenta e tantos de idade pra lá disso, acho; vovó, est’aquela, a Mafalda com nenhuma semelhança com outras. Penso, deduzo.

A Malfada, ou Mafada, ou Malfalda. Ou, Mafalda mesmo. Ou, como quiser quem for.

17/06/2011

Eu tomaria uma comigo lá. Sim. Talvez

O boteco, o bar, o estabelecimento, o lugar; um mais parecido com um presépio do coisa, de arrumação dele, algo fora do que nunca vi, desenquadrado, inominável, numa esquininha bem discreta da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. Passo sempre na porta, por lá, como se passasse por uma galeria de deuses...

O teto lá não se vê, se vê nele coisas deslocadas, paralisadas no ar, esvoaçando num vento quase desértico de ermo, num distante do real dos seus frequentadores... Um não lugar de não coisas espalhadas. Poderia descrever aqui os objetos lá expostos, mas acho tarefa um tanto mesmo inútil. De bagos a cabeças de almas de objetocoisas, da vida desgarradas dos seus usos habituais; sobras, ruínas de mimos e estimas do que um dia foram nos imaginários dos catados da vida, e dos tudo que se move nela.

No resumo: no bar do Barba o colecionador é quem chega, quem passa, quem bebe, quem conversa lá nele de bar a bar, no balcão. Cada qual lá monta o seu assunto no exposto como for que será, define seus objetos, seus disses de consigos; diz-se pra si num em verso íntimo e secreto de sim e de não ou talvez: isto é isso com aquilo ou não; eu sei e pronto se será e se vai ser vou ver. Como é. Como são.

As coisas são quando são pra gente, vendo-as em si, ali ou lá, como forem em nossa frente acontecendo de sendo. Serão de pronto o que querermos no verso ou no reverso do que sido pra ser. E será.

Eu vejo nele o que ninguém verá por mim, vendo. Eu vejo, miro, delineio, moldo, soldo, pego, entre e saio. Eu vejo. E fico.

Vendo sempre que por lá passar. O Bar do Barba.

02/06/2011

Comprando peixe dos outros... (mas só se compra de outros, ué!)

Queria comprar um peixe... Soube pela TV de uma promoção de filé de merluza num super, num híper, num super, num híper, num super.

Comprei logo três pacotes de um quilo cada. Peixe barato... e peixe eu adoro e como pelas ventas até com espinhas e escamas. Ah, me mandem peixes como presente, eu os adoro! Não os como crú, como nossos irmãos japas, mas de todas outras maneira, feitas, é comigo mesmo!

Queixo meu não ficou trincado de caído, mas fiquei pensando nas quantas mãos, nos quantos mares, nos quantos sais e suores para de porem diante de minhas mãos, limpos, lisos, prontos para o meu consumo, o meu prazer.

Sinceridade: aquele gostinho de burlar a suprema vigilância do capital e seus desmedidos lucros, foram por águas... Perdão, no literal, deste quase infame num quase trocadilho.

Que m...rda de globalização!



23/05/2011

Ele não usava Black- Tie

"Depois eu te mando uma foto
da primeira vez que vi o mar de perto
Estou sensacional"



Eu disse o tal poema com brilho nos olhos e muita saliva nervosa, sendo assistido, ouvido por Gianfrancesco, que me olhava impávido, terno, em olhares vindo da minguada plateia, num teatrinho de beco, digamos assim, na Rua 13 de Maio, no Bexiga. O ano devia ser 1992, talvez.

O por acaso da ilustre presença, que me viu no ver o falar de um poema que dizia do mar, do meu deslumbrar com tantas águas num Atlântico estacionado na Urca, numa bela tarde de Rio de Janeiro, foi coisa de acidente. Eu não tive pernas depois para lhe abraçar como devia, e apenas um apertinho de mão, de coração trêmulo foi de mim a reação. Gianfrancesco era e seria um Guarnieri e tanto ali na minha frente, sem Black- tie, despido da película da fama...

Para quebrar a minha embriaguês, involuntária, uma jovem muito bonita, namorada de um dos seus filhos (não lembro de qual deles), desceu ao palco (a plateia ficava num cimo) e beijou –me a mão, dizendo-se emocionada.

A noite ganha... e perdida ali mesmo num vácuo, sob um orgulho e uma timidez implacáveis que me levavam novamente ao anonimato da minha poesia, da minha carranca travada na cria da vida. E fiquei com aquele abraço grudado em mim, pra sempre, sem entregar a quem de fato seria: um artista genial e simples, tão simples que me ouviu calmamente, e humilde me aplaudiu de pé, como os outros mortais daquela noite, num teatrinho de beco do Bexiga. Na cidade de São Paulo.
São Paulo, São Paulo, Brazil

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