Crônica de Segunda

* "O que os senhores estão lendo vai saindo a olhos fechados" (Machado de Assis) Agora,o que escrevo e os senhores não estão lendo ainda não tem olhos. Editor deste blog

08/02/2010

O nosso choro por nós



Sendo bastante franco, verdadeiro, puro, no meu estado maior de minha brutalidade humana, hoje faço uma pequena e insignificante reflexão sobre a morte. A quem por ela possa ou não se interessar.

Li ou ouvi de boca de alguém, não estou nada seguro da fonte, todavia diz do mais ou menos o assim: não choramos pelo morto e sim por nós, por saber que ali, naquele igualmente que parte desta, está a aspereza da terra também à nossa espera, seja que seja qual dia for, é o certo, o exato, o absoluto.

- Então meus chorados até hoje foram um embuste?
- Sinto muito, prezado Eu, mas choraste apenas por ti.

Esse lembrado da vida em relevo funéreo, chega ser mais ainda, mais cruel, cruel por saber que vamos só; e nem o Ser mais apaixonado por nossa estimadíssima persona poderá conosco dormir naqueles lás silenciosos do estranho reino de além. Mesmo porque, naquela roupa estranha de madeira, vulgo, dito, chamado caixão só cabe um. Não se usa fazer pra mais, mesmo se dois amáveis amantes morrerem juntos em tragédia das comuns. Dois, não, nunca. Só.

Ela vai te comer.

Não, meu caro leitor, não se assuste, é tudo ficção. Vamos continuar nosso choro.

01/02/2010

A mãe do prefeito



Lá na minha terra, soube daqui, um velho amigo dos bons, dos bem dentro do meu íntimo, que meu já foi até vizinho de emprestar açúcar e tudo o mais, agora anda apavorando os poderosos daquela plaga... Tudo surgiu a partir de uma brincadeira sua com alguém, dizendo aos dizendo que seria, que era, então, candidato a candidato a prefeito. Por onde? Como? Ora, claro, pelo PT. Porque lá o partido do presidente Lula, pelo que me contaram é modestíssimo, nunca conseguiu ir além do encher uma perua Kombi. Daí, que ninguém duvida da fala, em soberbo desafio, desse aspirante ao cargo mais cobiçado daquela comarca dos gerais. E se sabe que é brincadeira porque o cabra em questão nunca foi homem de política, nem de dinheiro, nem de nenhuma outra ameaça às espécies sociais do PUDER. Sujeito dos mais simples, dos mais pacatos, dos mais sem jeito pra coisa, no mais longe do tema e da compreensão da peleja humana chamada política.

Esse apavorador dos macacos da árvore genealógica do PUDER na minha terra, nada mais é que um homem que nunca saiu à rua, sem antes botar na sua cara o melhor sorriso, o melhor brilho no olho, a melhor sinceridade. Sim, e de longe já grita, já mexe com o mexido, apertando a mão no aperto certo da força do apertador, e se houver reciprocidade, batidas no ombro, abraços não faltam; depois vem os-como-vai-a-família, e o tudo-bem-eu-vou-bem-e-você-como-vai... e repete, de novo, novamente, igual, parecido, similar, tudo outra vez sempre que avista um assemelhado seu... Ufa, este é o nosso futuro prefeito, ora. Sim, isto sou eu aqui repetindo pra mim o que tão dizendo às escondidas, no cantinho do riso irônico galhofeiro, no canto também das bocas graúdas da elite apavorada com tamanha popularidade repentina desse, desse, desse... Bom, o nome fulano, beltrano, sicrano.

O amigo candidatíssimo, veja, continua tranquilo na sua simplicidade... Segundo boca dele mesmo. Dentro do Partido ninguém crê, não querem crer que ele tenha força, dinamismo, jeito, pegada, condições... diz-se, materiais, né (expressões assim surgem, claro depois que ele sai do ambiente). O cara não possui onde cair vivo, como vai ser prefeito, ora! Este dito é uma interpretação dele pra mim, dele mesmo quando deixa as rodas dos mais malvados - porém incrédulos com sua capacidade publicitária. Duda Mendonça, Nizan Guanaes e outros tais do marketismo político ficariam no chinelo, se analisamos as estratégias desse meu tal amigo que não posso dizer do nome – mesmo porque, se sabe, é notório, em escrito não posso dizer, devido ao rigor da Lei Eleitoral. Vai que pegam isso, e a coisa pega, atrapalha o danado. Ufa, e não sou eu que vou tirar o primeiro caminhãozinho de areia do seu rio, não mesmo. Serei fiel, como no sempre, até o último pescoço de vida. Creia.

Pra encerrar esta minha peleja em apresentar a tal história verídica, pequena, mas verde em vida de se ver já, agora, ao vivo - como se diz na TV- em tamanha façanha, direi em exemplo, registrado, sobre a mãe do nosso postulante ao cargo de candidato de postulante àquela prefeitura de minha terra (desse milagre não revelarei a igreja que seja a dele, em sã consciência, claro). Dona Senhora é portadora de Alzheimer e vive numa cadeira de rodas, e esse seu estimado prodígio, já “prefeito” - para íntimos e intimados que vai encontrando no acaso das ruas – é quem cuida com o máximo zelo e carinho de sua Senhoria.

Pois bem, e não sei se mal, Dona Senhora e seu filhote maravilhoso, pregador de ideias suas mesmas, toda manhã passeia e toma o sol oferecido a Minas Gerais, para que sua mãezinha saia da sua triste mesmice de cama e o ermo do silêncio mal disfarçado do Alzheimer. São ricas manhãs de prática do maior amor que possa haver entre mães e filhos, algo raro em demonstração viva e perene dos assins da vida, oh. Um soberbo encontro, invejável. E desse pedestal honroso, altivo, magnânimo, indestrutível, inabalável, a quem passa e se interessar possa ele pronuncia:

- Olha aqui gente, esta aqui é a mãe do prefeito, vejam! Mãe, fala com eles, vai mãe!

Dona Senhora não fala, claro, não ri, não pronuncia nada, apenas olha o infinito do filho diante do infinito de quem passa e ri ao seu amável e maravilhoso prefeito.

25/01/2010

Os pedaços da gente, na cidade




Sabendo que São Paulo faz aniversário em 25 de janeiro, hoje, dia desses saí do Largo do Cambuci, na caminhada, a pé, no chinelo, nos dedos, na sola, no muque das pernas e entrei na Rua São Paulo, porque ali estão dois pedaços de mim, ambos mais ou menos perto, em datas também. Para que as coisas pudessem se encaixar, na sequência delas, peguei a Rua pelo final e fui em direção de onde ela nasce em soberba e altura, lá bem perto da Rua da Glória, Praça Almeida Júnior, para as bandas da Avenida Liberdade (a Avenida do famoso bairro dos imigrantes japoneses, bem no topo do Bairro da Liberdade)...

Mas se isso tudo é pra dizer outra coisa, é verdade, que não o direi se ao menos esse pequeno traçado não o fizer, em geografia mínima que seja.

Pra se ter uma idéia, a Baixada do Glicério onde se encontra a dita aí em cima, é um local há tempos habitado pelos que vivem nas bordas, nas quebradas, nos vãos, caindo pelo ralo, dos que vivem do pouco que vai escapando das partes boas de São Paulo, a Metrópole. Não direi de outro jeito, não mesmo: o rio se guia pelo eixo, é verdade, mas o que seria dele sem suas margens? E elas o representam, em cor, textura e cheiro, tudo em creme e osso, se escorrendo e batendo no sempre da vida como for e será.

E, se refiz aquele caminho foi por vontade aguda de lembrar, mastigar um pouco o meu passado por ali, em início dos anos noventa, por exemplo, de minha alguma amizade com o cinepoetaudiovisualista Jairo Ferreira (1945-2003). Exatamente ali, num trecho da Rua São Paulo, viveu e morreu, em um pequeno apê, o homem que morreu de CINEMA, morreu principalmente daquilo que foi e não foi de ser seu no pleno. Ele é o cara, o crítico, o cineasta, o poeta, o jornalista, o amante sem vergonha do CINEMA brasileiro, que vivenciou e escreveu Cinema de Invenção (http://cinema-de-invencao.blogspot.com/). Veja, meu caro leitor, veja isso... Mais, dele, agora não posso falar, não mesmo, e eu preciso chegar ao final da rua.

Naquele mesmo dia ainda, pisei o outro trecho da Rua São Paulo, a uns duzentos metros dali do Jairo, do então, bem onde ela se prepara para subir, no definitivo, o morro em direção à Avenida Liberdade e lá se fechar no seu início... aquele pedaço da rua ficava a casa do amigo Zé Reinaldo, que a dividia com o outro amigo, o artista plástico Chico Martins, o mesmo cara que me apresentara Zé Kéti. E isto aconteceu ali mesmo, quando num churrasco na casa desses dois, o sambista era o grande convidado daquela tarde, lá pelos idos de 1995, talvez. Ah, o Zé e todos os seus ketis de Rio a São Paulo de Brasil, que eu vi, na minha frente, ao vivo, transformando caixinha de fósforo em bateria de escola de samba, orra. Meninos, eu vi.

Fiquei ali algum tempo parado no ermo das minhas recordações, oculto em mim, diante do que havia sido a casa desses amigos e do que havia sido o Recanto do Assaré... Sim, ali mesmo nesse pedaço da Baixada, bem do lado da porta da casa deles, pasme, havia também o bar nordestino Recanto do Assaré. E diz minha miga Zezé, que foi amicíssima de ombro do Kéti, que Ribinha, o dono do Recanto, foi o homem que apresentou Patativa do Assaré a São Paulo, e São Paulo à Patativa, ora.

Mais, não me lembro bem de quantas vezes por lá eu me curvei, em risos e cervejas com esse pessoal todo, ufa. E olha que no terceiro copo, eu já paro. Porém, pra durar bastante a conversa e de lá não sair nunca, ficava fingindo com um copo de cerveja na minha frente, pela metade... Eu, o boêmio que nunca fui e quis ser, e quis porque nunca fui; todavia, o boêmio que sempre quis eu fui ser, fui.

Aqui eu paro com esse pedaço de mim num canto da cidade, uma que me acolhe, me ama, me beija e me tira o fôlego, mesmo quando, em pele de migrante, apanho, sou chutado, pisoteado... Mas ela não, São Paulo, sempre me tira das cinzas – como uma mãe tira e salva o filho do mal, sempre.

18/01/2010

Ideia morta


Hoje estou no aqueles dias, sabe, e como homem não derrama sangue, fica aquela coisa seca, batendo osso com osso e uma certa briga de foice no meu interior; que haja pasto pra essas doidas que cortam a torto e a direito, ô... Tenho uma ideia que julgo ser a máxima, mas logo vem outra toda cheia de si, e vai logo tirando a roupa, mostrando a coisa e tal, eu sem jeito, querendo desistir, e ela me vem seduz, pisa do alto dos seus sapatos (toc, toc, toc), e logo aparece uma outra então, me arrebenta no clarões das luzes de tão cristalina de ser e... Ah, eu quero isso, quero aquilo, aquele outro...

Assim sendo, não sendo, fico sem ser, sem ser. E quem vai desbancar a doida daquela outra ideia mais que maluca, mais que forte, mais do que tudo aquilo, ó?! Recuo feito um preá assustado, no canto do brejo, no canto do açodamento... Depois, no depois, pensando bem, não, afogar-me em água tudo bem, mas em eixo de pântano, não. Não me rendo, não! Faço greve, não escrevo, quero ver quem me tira com ela, rá.

- Ora, malvada peste dos aqueles e dos acolás, morra, antes do existir! Te enterro, agora. Morta.

Poderia e deveria escrever sobre a dor, a minha profunda dor e impotência diante do que se acontece no além, no além de nós, no além das nossas forças, no além das nossas terríveis naquele Haiti que não é, e nunca foi o aqui, o aqui. E isso talvez baste.

11/01/2010

Bahia de mim, do chão, tempo dois





Quando pisei o solo primeiro do Brasil, em terra firme para meus pés, ainda em estado, covardemente - digamos assim – judiado por um amor às cegas, por um amor mais de ouvir do que de saber, no real. Um tesão por intermédio, e nem sei se isto é possível, mas eu sinto que agora a besta da minha libido ficou boba diante da possibilidade do comer, do consumir naquele ato... Salvador estava ali, no calor dos meus pés, me recebendo estendido em luzes das 18 horas daquele último dezembro que nossos olhos podem ver, agora pouco.

Saindo do aeroporto, subitamente entrei num forno, e o carro que me levava ali do lado mesmo, em Lauro de Freitas, me embrenhava numa paisagem que aos poucos me refrescava com a janela do automóvel em movimento. Fiquei procurando na minha pele a brisa do mar. Perguntei a Velame onde estava o ele de aqui, o Seu Mar, pra que lado...
- Cacá, estamos numa baia, imagine o mar... onde você quiser ele estará, brincou comigo. E o puto continuou pisando no acelerador, com uma pressa, muito mais de um paulista do que a de um baiano. Pra que aquilo, me perguntei, queria ver, sentir Salvador lentamente, em cada partícula de vento soprado em mim, e assim eu respirava fundo do meu íntimo de Castro Alves, do meu íntimo de senhor de escravo, do meu íntimo de bugre perdido, do meu íntimo de matador de índio... Ah, o meu íntimo de Pedro Kilkerry, o meu íntimo de Jorge Amado, o meu íntimo de Tom Zé... Ah, me respire Seu Vento, que eu quero ser varrido, doido, por você!

Mas aquilo não estava nos planos e a cidade não me era aquela mesma que Luiz Orlando da Silva http://www.abcvbahia.com.br/noticias/06_0910.htm, o ilustre cineclubista baiano me dizia, e diria, ora. Assim, o passado e presente, o fantástico, o real, tudo me confundia, e eu virava um tolo de mim mesmo onde a razão virara uma formiguinha daquelas mais insignificantes. O meu guia, o meu Moisés prometido estava morto, e Velame, o substituto, digamos assim, fez o que podia e o que não podia para cumprir o nosso razoável; e Salvador, à noite, nos becos e nas luzes, poderia ser de qualquer tempo, de qualquer época, tanto fez, tanto faz. A cidade baixa, a cidade alta, as duas, as três, as mil e tantas cidades que estão numa só... Não havia tempo, minha estada na Bahia teria e teve o tempo de vida de uma mosca, e literalmente voei mirando pela janela do carro os tudos e nadas.

Os morros, as tais quebradas, os tais e os não tais que Luiz dizia, e muito mais, que nem me lembro já não seria possível, e eu ficava somente com a lembrança dele me falando baixo e calmo do lado, balançando o seu “cabelinrastafari”, a quem nunca vimos de outro jeito, sem aquelas tranças noturnas, feitas por mil mãos de África. Ah, eu já não sei, não saberia o ele queria tanto me mostrar, e com certeza não verei jamais, por mais que eu tente me explicar a quem for, não saberei dizer, nada, tão somente posso reproduzir o assim, neste:

- Cacá, quando você for a Salvador, vamos andar por lá, vou te mostrar... A Bahia é cheia de morros, cheia disso, cheia daquilo, coisa que a televisão não mostra, vai ver... quando você for, vai ver, quando você for vai ver, quando você for, vai ver quando você for vai ver quando você for...

Eu nunca fui à Bahia. Naquele tempo.

04/01/2010

O ator martelinho de ouro



Pois é, pois, passei esses dias por Campinas, em tempo contado nos dedos, porque dezembro já gritava pelas bordas do seu trigésimo dia, e eu que manco do coração ainda ando – digo, sozinho, sem par nem ímpar pra fazer de seu, bola de meia e unha de roer – precisava me aprumar rápido pra capital e ver o onde me caberia nalguma ceia de ano novo, porque de comida gosto e ainda há espaço pra engorda... Oh, céus, oh, dias, que são esses de se empanturrar em mesas e pratos! Desta feita, antes que me arrumasse de volta a São Paulo, o tão Nic Nilson, amigo de datas outras, me convidou pra tomar uma cerveja no Joel, o Barbosa, somente tão isto me disse: “pra uma cerveja”; mais nada. Também nada perguntei, porque barco à deriva, obviamente, não escolhe porto nem segurança.

Há tempos conheço um ator, que nas horas vagas é dono de uma oficina daquelas “tipo” martelinho de ouro, saca? E noutras horas vagas é ator, e assim caminha a sua humanidade... Sim, digo, “sua humanidade”, porque o meu amigo funileiro/ator, ou ator/funileiro é uma rara pessoa. Rara. Em todos os sentidos. Pasme, caro leitor, pasme, porque de quatro estou, e até de oito, de comoção com isso. Fui a uma reunião festiva na tal e qual funilaria, nos fundo da casa desse ator, e os convidados, além de alguns seus colegas da oficina, eram tão somente músicos, cantores, escritores e produtores... Uma festa!

Poderão muitos nem achar a menor graça ou curiosidade nisso, por estarmos no Brasil, mas o meu digo desse ator/funileiro ou vice versa, é mais minha teimosia em registrador coisas e coisas - que de insólito, nesse país, vivendo pra nós, não parece... - mas no mínimo previsibilidade nisso não há, estou certo desse errado? Se, se não já fica aqui o meu desdito, neste ato.

Essa divisão curiosa do meu amigo, aquele anfitrião da festa ida por mim, é talvez um dilema dos mais cruéis, dos mais mesquinhos e ordinários, a que o artista é obrigado a submeter... Oxe, me desdigo logo e fico por aqui no meu muro lamentado, mas o importante que emoções naquela oficina eu vivi, parafraseando o nosso Peru Rei de natal. Ademais, meu dileto íntimo leitor, sabes muito bem o quanto é pedra de duro a falta de festas, de reuniões desse tipo. Depois, vamos a uma coisa e lá vemos outra... onde está o previsível da vida, meu caro?!

Oh, ninguém imagina o quanto há de tecido e carne numa mesma musculatura, aparentemente frágil, aparentemente esquálida, aparentemente mirrada, ninguém imagina.

28/12/2009

As boas festas




Neste natal, neste ano novo, faremos as melhores festas, nos possíveis e nos impossíveis, vão ver. E ninguém vai nos dizer que não. Pode crer, creia, veja disso, daqui, dali, as boas festas desejadas por todos que nos apertaram as mãos. Mesmo que ninguém saiba ser bom ou humano, cuidadoso ou não, as boas festas vão sucumbir os mundos das noites na quebrada do sol.

Vamos ver, as boas festas. Em dois mil e dez tudo será igual.

Em dois mil e nove, eu acho.


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