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15 de mar. de 2008

SUSto pelas mãos do Dr. Tornatore


O meu número na fila era vinte e seis. O doutor que nos atenderia (digo, a mim e aos colegas da fila) seria o Dr. Tornatore. Estamos no Brasil, mas o SOAR do nome dele, claro, dispensa dizer sua origem. Assim o chamei porque o nome verdadeiro dele me fez lembrar do filme “Cinema Paradiso” (1988)... Por aqui me calo.

Mas o que importa mesmo é o comentário do senhor Vinte e Sete (o meu número era vinte e seis):

- Viu o tamanhão do doutor?
- Sim – tentei não me abrir muito.
- Notou só a mão do danado? – continuou o Vinte e Sete, em tom de galhofa...

Eu não queria dar bola para aquele senhor, seria estimular mais ainda o enorme preconceito que barra a visita de multidões de homens a um médico. Mas ele insistia na galhofa e olhava, medindo-me como se tivesse mesmo me vencendo com sua piadinha boboca. Deve ser por causa da minha estrutura física franzina, pensei... Só pode. O Vinte e Sete me olhou novamente, com uma cara de ganhador de partida de pôquer e, eu, meio irritado, querendo dar fim logo àquele diálogo insosso, disparei:

- O senhor tá assustado com o tamanho da mão dele?

Ele desmanchou logo sua cara de bonachão, arrumou uma outra e mudou a direção do olhar, talvez para o infinito da parede azul bem na nossa frente (estávamos no setor azul – naquele ambulatório mantido pelo governo do estado de São Paulo em que os departamentos são organizados por cores). Espécie de céu, cujos funcionários não parecem com nada que lembrem anjos, exceto uma das senhorinhas da recepção do setor que me atendeu.

Ela demorou para preencher a ficha, mas valeu pela beleza e o esmero da sua caligrafia. Adorei aquelas letras todas do meu recém-criado prontuário naquela unidade do PAM – Posto de Atendimento Médico Várzea do Carmo, localizado na baixada do Glicério. Um mimo aquela ficha!

O Dr. Tornatore é um homenzarrão daqueles; muito alto mesmo e forte. Fiquei medindo-o quando o vi passar do nosso lado, entre uma chamada e outra de paciente. Sim, não tinha cara de bravo, parecia calmo e simpático até. E isso certamente facilitaria as coisas, pensei. O Vinte e Sete não me olhou mais, exceto para dizer do tempo que durava cada consulta em média:

- Dois minutos... Contei, ó, pode ver – mostra o relógio.

Consulta pelo SUS é assim, o médico atende rapidinho por causa da imensa fila, não olha, não vê a cara do sujeito consultado. Ainda bem que em muitos casos passa a lista de exames a serem feitos (e devemos correr novamente para outra fila, que consumirá meses da nossa vida de espera pra saber se será possível um prolongamento... Se Ele permitir, sim), assina e te dispensa com um sinal de cabeça, falando apenas para você grunhir o próximo número na porta.

Disse até logo ao Dr. Tornatore, saí da sala e voltei os olhos em direção ao Vinte e Sete, sem dizer o número, apenas informando a sua vez. Ele estava lívido e molhado de suor. O que não deixei por menos:

- A mão dele é grande, mas são só dois minutos. Passa rápido, senhor.

Não olhei para trás, mesmo porque aquele bonachão havia derretido no infinito da parede azul, sobrando apenas um homem triste e cabisbaixo diante das mãos daquele urologista até bastante frio e nada simpático – como havia suposto- para cuidar dos pobres, literalmente, pacientes do SUS.




Nota: nesta semana, excepcionalmente, estou postando dois dia antes do prometido, ou seja, no sábado. Pois, estarei fora de São Paulo até a próxima terça-feira, dia 18.

2 comentários:

Anônimo disse...

ótima crônica, Cacá e toca em um tema que é tabu para os homens: o exame com urologista. Serve como sinal de alerta. Também nós, mulheres, não gostamos de passar pelos exames ginecológicos, mas entre gostar e preservar a saúde é sempre bom optar pela última, não é?
Risomar Fasanaro

Anônimo disse...

Esta crônica deve ser publicada tb em algum jornal. vale lembrar que exames digitais não são tão eficaz qdo o tradicional e assustador exame do toque. As possibilidades de cura no início do tratamento chegam a quase 100%, principlamente na perda da impotência que pode ocorrer se a doença se agravar. Melhor mesmo é a prevenção.
Solange

São Paulo, São Paulo, Brazil

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