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31 de dez. de 2017

   

Gra-ti-dão   - Cacá Mendes       



Um termo muito em voga, atualmente, me deixa mais do que maduro do entendimento do seu sentido, que, segundo um Aulete (virtual), significa : reconhecimento de ajuda, benefício ou favor recebido, e/ou característica de quem é grato. E disso, e por aí, vou me lembrando de casos e casos quantos ingratos a vida vai nos costurando em torno dela. Se hoje estamos em finalzinho 2017, sitiados entre os horrores das panelas mal batidas, e os horrores de um governo tampinha de garrafa, talvez seja mais por pura falta de gratidão do que por outras faltas que forem. Arre!
O escritor João Antônio, de Osasco, com raízes no Rio e outras paragens desse mundo, de cima da sua simplicidade e genialidade literária, a cada livro seu lançado, editado, nos seus agradecimentos jamais se esqueceu de agradecer, primeiramente, não a Deus, mas a Lima Barreto. Umas das figuras mais genuínas da literatura brasileira, a quem João Antônio entendia ser o mestre de todos nós, que sonhamos e pensamos a literatura...  Essa iniciativa de grandeza do escritor de MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO (Civilização Brasileira, 1975), dentre outros sucessos, era mais que um agradecimento, era uma tentativa de reparar um pouco o que as elites mesquinhas brasileiras faz: tenta espezinhar, esconder, massacrar, degolar, e dizimar a arte daqueles que não estão “autorizados” pela mídia das elites da casa-grande, a pisar os seus tapetes vermelhos das vaidades.
Portanto, a palavra gratidão que quase se “desgasta”, “se suicida” de tanto uso e reuso por aí, que virou palavra-chave na maior parte dos “diálogos” internéticos . Uma  # (hashtag) dela encheria caminhões e caminhões de “textos” virtuais... Agora, na prática, poucos, bem poucos “gratificados” se dariam ao trabalho de realmente fazerem jus ao termo, ao gesto, ao carinho, à retribuição, ou ao sei lá qual for o benefício recebido, em questão que fosse...
Digo, escrevo disso, porque a minha muita amiga Risomar, também de Osasco, me chamou atenção dia desses para essa história dos tantos ingratos que ora ou outra vamos trombando por aí. E isso foi num dos por acasos cafés da tarde, quando falávamos sobre o seu tempo de jornalismo no extinto jornal “Diário de Osasco”, que vez ou outra recebia pelos Correios um exemplar , bastante exemplar mesmo, um novo livro, autografado, do escritor João Antônio, por ele mesmo...  Onde, numa dessas conversas, que tomei conhecimento dessa turra desse autor osasquense em desesquecer o que devia ser mesmo inesquecível.
E, para as conclusões do que não se conclui, digo e redigo, o sujeito, se de barriga vazia, se necessitado, será sempre um ser grato, humilde, prestativo, e à disposição do que se for e vier a ser; caso contrário, nas horas mais cheias do seu prato, de matar todas as fomes juntas, do seu esfomeado ser, nunca saberemos  se ele fará valer mesmo o gesto, a atitude daquele que se esbalda na defesa do uso do termo gra-ti-dão, ou se vai apenas ficar na casa dessa onda, fingindo de ser.
O grato.  E por estar vivo e firme. Com um 2018 mais humano, e pleno de boas e sinceras amizades. Beijos, que fui.

29 de abr. de 2016

Passaporte para o mundo de Osasco

                                                
Fui a Osasco outro dia, mais por dever de amizade do que de ofício, digamos assim. Mas no fundo deveria ter ido mais por dever de ofício do que por dever de outra coisa. Explico. Ninguém é obrigado a nascer gostando disso ou daquilo, e de cinema também não, mas a gente é obrigado, por dever de ser, no mínimo a ser curioso... E daqui puxo a orelha de quem sabia e não foi, por preguiça, ou por dez ou mil outras razões. Quem não foi, perdeu. Perdeu inclusive a oportunidade de encontrar muita gente boa lá, em muitos sentidos. Apesar da modéstia, foi uma bela festa. Foi.
A festa a que me refiro foi o lançamento, ou estreia nacional, de “Passaporte Para Osasco”, filme de Rui de Souza. Uma obra fílmica que não perde em nada para um bom filme de arte europeu, ou um bom filme brasileiro. Quem o vir depois, entenderá do que estou falando... Por enquanto quero dizer mais, somente e tão de sua forma, de sua estética. Pois, se arte também é simetria, eis que “Passaporte para Osasco”, de Rui de Souza, tem muito de simetria, delineamento, capricho, nuanças e estética de um filme feito por mãos de artesãos que conhecem do ofício. Uma produção, obviamente, feita na cara e na coragem.  Está lá a marca do seu diretor/autor e também um dos seus colaboradores mais próximos como João Luiz de Brito Neto, cineasta e cineclubista, que além de diretor de fotografia e câmera, foi quem fez a edição; está lá também a trilha sonora, tanto a música original composta por Alcides Neves, como a outra parte da trilha musical do grupo “La Carne”; e também o cineasta e cineclubista Diogo Gomes dos Santos, com apoio do Centro Cineclubista de São Paulo quem organizou tecnicamente a sessão, dentre outros apoios em outras etapas do filme...  Enfim, há tantos colaboradores, que prefiro não tentar citar todos aqui, porque a lista é grande. Agora, é fato que o filme, “Passaporte para Osasco”, de Rui de Souza, já não é mais um projeto, bla-bla-bla, é realidade, ora!   
E vamos lá, todos os nós sendo desatados. Na medida dos bons ventos. Se o mar não vem até nós, vamos a ele! Ufa.
O Teatro Municipal de Osasco, de uns quinhentos lugares devia ter menos de meia casa, de algo em torno de uns 150 corajosos amigos de Rui de Souza. Os amigos e/ou amigos de amigos são sempre suspeitos e bondosos, mas posso dizer que no final de uma sessão de quase duas horas de filme documentário, não há amizade ou amigo de amigo que resista a caras e bocas, e ninguém, ninguém mesmo é condescendente com aquilo que não o é merecidamente bom. No mínimo as pessoas silenciam, mudam de assunto, inventam outras conversas etc. Mas neste caso, quem estava lá  no Teatro Municipal de Osasco, no último dia 11 de março, pode testemunhar, não vai me deixar mentir. As pessoas saíram felizes, caras boas e sem querer ir embora, querendo se estender, conversar etc... E, se não fosse o bravo Samuel Batista (aliás, quem ajudou a viabilizar a sessão de lançamento desse filme, com o apoio da Secretaria da Cultura da Prefeitura  de Osasco), no bom sentido, claro, aquela plateia não teria saído tão cedo do espaço. Oxalá, que sempre fosse assim, não é verdade?  
E o que lamentei, e lamentamos todos, imagino, é a ausência de muitas das personagens que estão na fita, que já não se encontram entre nós. Uma pena. Estão lá José Ibrahin (autor e cedente de grande parte das imagens de arquivos), José Groff e também uma das figuras mais carimbadas daquela turma, o saudoso Inácio Gurgel. Além ser uma das expressões daquele movimento grevista, poeta e militante cultural, é o homem das artes cênicas em Osasco daqueles e muitos outros anos, um multiplicador de cenas. Digamos assim.  Ademais, estão lá também, felizmente, os que ainda estão (e bem) entre nós: Helena Werner Pignatari, Risomar Fasanaro, Terezinha Gurgel, Antonio Roberto Espinosa, João Joaquim e Roque da Silva. São todos personagens importantes desse Movimento Grevista, envolvendo a extinta Cobrasma, que ainda intriga a muitos, tantos aos mais velhos como às novas gerações. Cujo poder de mobilização e força contra o regime militar, daqueles anos de 1968, encontraria par nos movimentos grevistas da cidade de Contagem (abril de 1968), MG, e depois no histórico e emblemático ABCD paulista, anos depois.
Encerrando esse modesto texto, sem maiores pretensões, só queria aqui registrar esse momento tão singular para uma cidade como Osasco, que, se não estou enganado deve ser este o primeiro ou o segundo filme de longa metragem produzido no município. Não precisa ser, exatamente, das artes e/ou da área da cultura para saber da importância disso... E quem não sabe da importância deveria procurar saber.
Assim, me retiro do Teatro Municipal de Osasco, e volto para São Paulo, de trem, de onde espero poder continuar observando e ajudando quando possível, ou, se for o caso, ao menos não atrapalhar quem está produzindo arte por lá. O que já está de bom tamanho, dada as nossas homéricas tarefas para a sobrevivência nessa área. Bom, de qualquer forma, eu também já tenho um passaporte para o Osasco. E, beijo que fui.


(Cacá Mendes)
Poeta e produtor cultural, e também

Coordenador do “Sarau dos Conversadores”

13 de jul. de 2015

A cidade da torre 



Eu tinha comprado uma cerveja em lata, uma de uns dois reais, no máximo, talvez.  Mas eu lembro que ela me puxou pelas mãos e me propôs uma outra cerveja, uma de uns 20 eu acho, mas teria que subir a torre. Subir, subir, subir e ouvir música fina, estabelecida... Um sonho nas alturas dos corações. 

O que eu chamo de “torre” é o edifício Itália, na Ipiranga com a São Luiz, em São Paulo - considerado um dos prédios mais altos da cidade, espécie de menina dos olhos das boas vistas dos que gostam que gostam de mirar os cimos de uma metrópole quase ensandecida. De lá se vê todos os lados da cidade, de Itaquera na Zona Leste ao Itaim Bibi, na Zona Sul; ou se quiser, a Zona Norte inteira, chegando em Guarulhos, emparelhado na Cantareira desde o Pico do Jaraguá, lá para as bandas de Cumbica, até chegar ao Bairro dos Pimentas e... Lá vem São Miguel Paulista, um arcanjo na beira do caminho de um Rio de Janeiro já muito passado (Dom Pedro dois passava por lá, eu acho – caminho da roça entre a capital cafeeira e a corte)  etc. Agora, do contrário, víamos Cotia, Santo Amaro,  Marginal Pinheiros e até Jardim Ângela, depois podendo se chegar com os olhos até o alto de Pinheiros, pelas bandas da Lapa, depois se avistar com Osasco, início da Via Anhanguera, um pedacinho de Caieiras; e, mirando bem, num oposto podíamos ver um pedaço do ABC etc., etc.. Ehehehehe, evoé! Praias às vistas. Caminho e serra do mar. 

Mas talvez isso nem tenha tanta importância, e o que me pegaria mesmo naquela noite na torre, seriam outros quinhentos... Deixei meus velhos anos, espichados num passado que me guiaria esplêndido naquela noite nas nuvens, só  para me disfarçar de jovem, de moço. E fomos um de dois, mergulhados no pleno da vida em conversa, de fio a fio, desenrolando-se no cimo dos escuros das imensidões paulistanas e dos seres. Eternidade numa noite.

Éramos para se ser, ao seu tempo e modo, cada um em si. Sem des/ser de nenhum de nós. 

Depois, aquela farta geografia dos ares, e nós nos decifrando nos carinhos invencíveis de felizes dessa vida... Bocas mordiam-se violentas mesmos,  querendo em beijos se pegar em fogo para se compensarem de tempos perdidos e doloridos, idos desde há muito... Ah, depois, tinha a dor da pressa, a dor da ansiedade, a dor da insônia, a dor pela falta, a dor pelo ciúme, a dor pela dor de esperar qualquer amor numa encruzilhada de esquina; só para se fartar de feliz, se fartar de felicidade. 

A cidade agora, em toda vista, era um campo aberto de luzes que  se estendiam aos nossos pés, de todos os lados, nos servindo com toda sua generosidade de megalópole que aos poucos vai se diminuindo, diminuindo até tornar–se do tamanho de uma cama onde só caberiam duas pessoas...  E breve. 

Voltei aos baixos de outras luzes, precisava seguir com minha música falada, escrita, sussurrada... Seguir. A torre ficaria lá em cima com sua luz, sua altura, sua música refinada, estabelecida, e sua cerveja de uns 20 reais... Talvez. Esse era o preço? 





19 de dez. de 2014


Pensar mais, corporificar mais


Errei da mão pensando em mim, no que escrevo torto em linhas. Não me quero comigo, pensando à toa que sigo eu mesmo os hábitos dos outros, que por mim eu penso que pensam. Não quero nem pensar o que penso!
O vento precisa ser vento só, como vento em praia deserta, mas precisa ser. A natureza da gente também é ser ilha, mesmo se mar ao redor não houver... E olha, sou por mim, que somente o coletivo pode nos acolher, se o caso de tsunamis nos atacar em solidões irrefutáveis. Disso não me abro pra pensar, em soltar dessa ideia. Nem preso; nem vivo de morto, se for pra ser bem turrão. Sou pedra nas nuvens e fu...maça no chão. Se for pra ser. 
Ave são as minhas mesmices de gota em gota pra narrar e medir meus tecidos que vão-se indo, indo... 2015 está aí, na porta.  Olha, e eu me vou, estou indo nesse fiapo de ano que vai se debatendo nos ultimatos das horas.  Pois, nos demais, nos depois, nos apelos vão- se as bicicletas. Ficam-se os sonhos com os carrosséis.  

Grande é o pensar, pequeno é o não pensar. Miúdo não quero ser mais comigo de viver sem muito assim. Nem nos pés, nem na cabeça. Esse é o sentido que me corporifica.  Em 2015 eu quero pensar mais, mas também me corporificar mais. A vida me pede isso, e sem delongas. Evoé!

6 de set. de 2014

Os Mayas - em 24 pedras

O sol de domingo é o melhor sol do mundo, e nele me deito e me rolo de rir ou de chorar. Isso se for pra ser.  Assim que num domingo de outro dia, deste mês de agosto passado agorinha, dia dos pais, fui à Oca, no Ibirapuera, ver a exposição dos Mayas...
Um Parque quase ermo... Desci a Sena Madureira a pé (em direção a ele), levando uma garrafinha de água, para o caso de alguma sede previsível. E como não precisa ser nenhum sábio, água em dia de calor é mais que bem-vinda para se matar a sede e, também no caso de haver algum principio de incêndio, pois nunca se sabe... De repente o bombeiro pode demorar, daí nossa chance de  nos  tornarmos  um herói. Ops, isso aqui era para falar dos Mayas e, já estou me desandando por outro caminho. Voltemos ao início. Na porta. En la puerta.
Como era um domingo com pouco público, lá cheguei e fui entrando... Ops, de repente alguém falou:
- Não pode entrar com a garrafa!
- Sim, tá bom... Eu disse.
Fiquei procurando um jeito de preservar a garrafinha de água para a volta, na saída, mas não aparecia nenhuma ideia brilhante... Nisso, outros monitores, guardas e afins, uns 5 ou 6 e outros mil, talvez, quase todos em coro único dissonante, também insistiram, num berro: 
 - A garrafinha... Não pode entrar!!! E desta vez, aquilo me pareceu muito rude, ou enérgico, mesmo. Bem, não sei a diferença, mas era algo assim bem chato de se ouvir.
Eu revidei, não na moeda dessa altura da minha referida menção, mas revidei. Dei no olho deles, dos famintos lobos daquela portaria quase desértica de um domingo de dia dos pais... Na ausência de carneiros, lobos devoram grilos.
Assim, como já disse acima, vomitei:
- A garrafinha não contém explosivos! É água! Não precisam me falar mais, já sei, já sei, não posso entrar com água na exposição dos Mayas!
Lá se ia a minha chance ou perspectiva de virar herói no caso de algum princípio de incêndio. Sem água, nessa secura imensa de uma São Paulo do mês de agosto não daria, ainda que fosse por uma hora e pouco... 
Voltando para o interior. Ou iniciando o percurso: de 600 a 900 anos D. C., lá desci ao túmulo do sem fim daquela história mega, faraônica, mística e plena. E pensei: aqueles caras podem ter dado aula à Shakespeare, talvez; e, também, devem ter exportado máscaras para a invenção do Teatro Nô (japonês), não sei. Claro, isso milanos (junto assim mesmo) depois, por aí...
Mas, brincadeiras à parte, eu mergulhei naquele profundo, e vi maravilhas, terras longes, ermas, povoadas; vi mares, ilhas, governos e desgovernos, astros, deuses, ritos e... Cacos de uma civilização inteira, cujas marcas indeléveis, em pedras, perpetuam sabedoria e tecnologia, avançadíssimas para um tempo do sem fim, um tempo sem medidas... Talvez, ali, a morte, mais que a vida, esteja muito mais representada, por ser esta um rito de passagem para um nada (ou tudo) muito, muito além das compreensões (ou das aceitações).
As diversas faces de uma civilização, em detalhes nas sobras de esculturas e/ou arquiteturas, ou as próprias máscaras, são representações grandiosas que nos tocam a alma e o espírito, ou o insondável, intocável. Seriam aquelas peças o “cinema” daquela gente, que ao seu modo vasculhavam os longínquos dos tais mistérios acerca da morte, para perpetuar a vida? Se o cinema, no seu estado em que o conhecemos é uma imitação quase perfeita da vida, para nos deixar vivos (postos num tempo), para os Mayas, suas grafias muito provavelmente são representações para os perpetuar (e perpetuou) num sem fim da vida. Na terra e no espírito humano. Enquanto houver  essa espécie que denominamos homem.
Voltando ao cimo da saída daquela exposição, sedento que estava da minha garrafinha de água... Não, não havia mais garrafinha de água e nem ao menos um local onde se pudesse obter uma. Enfim, a sede e a água: um estado e uma coisa, da vida. Apenas isso.
Mas o forte, o indelével, o cortante, o fundo, o ensimesmado de mim, era o que era daquele mais que um quê de um turbilhão de lembranças das nossas próprias ruínas, ali, naquele subsolo da Oca, em pedaços de pedra, que juntos, como numa fita, formam imagens que formam um filme, um filme que fica repetindo na nossa cabeça, como o eco de um grito ensurdecedor... Apenas isso. Mais nada. 



6 de jun. de 2014

Um beijo de café...

Se contar, vão dizer que é piada etc. e tal. Mas no meu invento eu não estico mais do que me é possível as realidades, nunca. Creia, estimado leitor, meu negócio é dizer de verde ou maduro a verdade, na mais pura dela que for pra ser o dito e escrito de valer que for. Vi dia desses, num domingo desacorçoado, na Avenida Paulista, perto do Parque Trianon, diante do Masp, bem diante dos meus apertados e quase rasgados olhos de índio sem tribo, o seguinte.

E conto, debaixo do meu nariz, vermelho de escorrer nos ares poluídos da capital, o seguido que sei e soube vendo: um coração foi jogado pela  janela de um carro à 60 por hora devia ser – às 18h30,  e caiu, rodopiou ou chapeou ou respingou no asfalto quente da Avenida Paulista... Meia dúzia de skatistas com mais meia dúzia de garotos vestidos tipo assim e tipo assim mesmo, como dava, meio qualquer tribo do tipo que viram, viram, viram, viram, acompanhando com os olhos, cabeças no movimento do coração chapiscando no quente do asfalto ainda. Depois daquele dia estafante de sol-do-meio-dia do tempo todo.

Gente, vocês não sabem o que é presenciar tragédias paulistanas, coisa tão corriqueira, coisa tão comezinha tá virando... Tipo assim, ó meu, eu vi sim, meu, qualé, cara, sabe....

Mas voltando ao coração... Ele, coitado, de fio a pavio se ralava, sangrava muito, muito. E as pessoas viram aquilo, se sensibilizaram, e algumas senhorinhas até tentaram saber do malogrado músculo o havido. Se houve e se seria assim o descrever, em liso e bom português de professor ajustado no culto das coisas de bem ser da língua, não se sabe. Mas seguindo no conto do coração que via, ali diante de mim, sangrando de sagrado que era, me olhou com certa doçura e me quis que o pegasse, pelas orelhas mesmo, e lhe beijasse lhe alisasse... Que foi o meu dito aqui e feito naquele dia de momento tão especial, apesar do vivo do sangue em vermelha cor de se ser. Que era. Mesmo assim abracei-o e beijei-o, ternamente, para assim comigo ficar sendo de meu, mesmo que não conseguisse colar no meu peito. Assim foi que o fingi colado em mim, junto com o meu, mesmo que estivesse no peito de uma mulher, mesmo.

Depois de algum tempo, apertando-o com jeito, no meu macio das mãos, fui me reinventando com ele, tentando entender sua língua própria, seu jeito peculiar de sorrir, de chorar e, até de falar. Sim, esse coração tinha um dono, ou melhor, uma dona, a mulher que sentada ao meu lado me sorria com um café pela metade na xícara.  Depois pude perceber, o seu beijo era bem brasileiro, tinha gosto de café. Um gosto delicioso de café.

23 de out. de 2013

A balança dos olhos




Minha uma amiga de tempos e tempos, num canto de conversa outro dia, antes de outros tantos assuntos que sempre percorrermos juntos, me cutucou com uma varinha curta – e nem era uma de condão:

- Cacá... tô gorda, não?

Eu, mais opaco do que nunca nisso de gordo e magro, por descuido olhei-a por muitos quebrados de segundos, em mira de viés, assim medindo a milímetro de olhudo, sem querer crer naquela sua indagação... Para resolver logo a questão, dei lá o meu checado:

- Sim, você está mesmo uma baleia...

Não posso dizer da carinha enfezada, com uma misturinha de  açúcar que ela me fez, não posso dizer... Digo do açúcar, porque ela não seria pessoa de se enferrujar de brutalidade nunca, ainda que por segundos. Mas assim, quase que no mesmo instante do terminado do meu dito logo aí em cima, já emendei, sem que ela desse réplica no assunto, sem eira nem beirada, castiguei no conserto da piadinha:

- Claro, não queria dizer antes, mas na verdade, a baleia que eu disse é aquela do Vidas Secas do Graciliano...

Sim, rimos muito disso por minutos, rimos (mulher tem cada uma... mesmo aquelas mais magras dessa vida de beleza). Ah, no fundo, tudo isso tem graça, sempre. Eu acho.






Nota: pedi emprestado esta imagem de algum abençoado... Claro, ele não disse sim nem não. Na dúvida eu publiquei...

23 de jul. de 2013

Perturbações de ordem genérica

Eu fiz um silêncio e pude observar que ele não teve nem mais nem menos ruído do que os outros de outras vezes. Então eu pensei em  pessoas juntas nas ruas, nos ônibus, de corações todos doidos por outros corações mais doidos ainda... Realmente, a vida é um (grande ou nenhum) mistério: a gente nasce e morre sozinho,  mas nunca quer é se separar dos outros, nunca quer se mover da gente mesmo para um nada de oco qualquer.

Eu digo e sigo eu mesmo, mas sempre penso que junto comigo sozinho eu não sei viver nunca de jamais; isso sem ninguém de ser igual eu mesmo, em carne, flor ou osso, ou espinho que seja mesmo. 

Todo mundo quer ser feliz, quer sorrir, mas muitos acham que isso é motivo de se abrir para o primeiro dinheiro que aparece, ou seja, para o primeiro mármore frio que te encanta? Não, isso lá e aqui (ou lá na pontuação do outro lado mundo que seja) é titubeação de classe: dúvida da sua perfeita divisão de água, de onde começa tua mina e onde começa a mina daquele outro teu vizinho nada igual a você.

Eu digo pra mim que não canso de não aprender, mesmo, eu das coisas burras que me meto... Aprendo e desaprendo nessas idades que vou e volto sempre comigo, que vou ficando de velho e forte de ser eu mesmo, cada vez mais. Querendo somar e dividir e somar de novo pra dividir de novo...  Sou um incauto, sem juízo de um moleque de rua larga e estreita, eu mesmo em carne e osso! Sou?

E assim digo o que eu não sei (o que sempre soube): o sorriso é um encanto tardio? Algo  que, se na hora dele o outro já tiver se fechado, com um soco na própria alma de si mesmo, e pronto, querendo ele te desmanchar do rosto? Não, o sorriso não poderá, por mim e por ninguém ser um encanto tardio, nunca!

Se ela, a tristeza ou a incerteza te pegar antes da hora,  antes da noite; ou se ela te derrubar antes da queda, antes do muro, antes do poço, não se desarrume da cara! fique firme, fique firme, como uma rocha e se cubra de pingos da chuva, e finja-se consigo mesmo: são beijos.

  
  

1 de mai. de 2013

Os Cavalos de Dom Pedro


Eu de ônibus, num domingo desses voltando pra casa, ônibus a 40 km por hora, banlangadan e só no sacolejo da carroça, comigo, dos pés à cabeça. Mas vale lembrar que SP já foi pior de transporte público, muito pior. Ao menos as poltronas atuais deles são almofadinhas, rasas, mas são. Em outros anos era uma coisa de fibra, pra arrebentar o cu do cidadão (com perdão da palavra). Mas voltando no aquele dia que dizia, quando me fugi em digressão... Vamos à cena:

- Queria ver os cavalos de Dom Pedro beber dessa água aí, hoje. Sabia? Naquele tempo eles bebiam dela... - Esse era o motorista do ônibus, falando e olhando em direção ao rio Ipiranga, um que corta o quintal do Museu do mesmo nome, em homenagem ao nosso Dom Pedro I que, daquele grito não morreu, reu, reu.

- Ai, credo!... esse rio tá uma nojeira! imagina... morreriam no primeiro gole... - Essa é a cobradora do ônibus, que agora voltava a se movimentar com o sinal se esverdeando. Abriu. Abriu. O farol.

Eu ri, ri da cena imaginada, com Dom Pedro dando água aos cavalos. Meninos, eu ri.

22 de fev. de 2013

5 anos de blog


Já tive surtos homéricos de escrever muito, compulsivamente, e a cada segunda-feira publicar no meu blog... Corria, cortava, diminuía minha estada em outras atividades, espremia o meu já minguado tempo... para, no blog, botar e botar mesmo que ovo não fosse. Daí eu disse disso não desisto e louco que sou que fico e não me rendo entende e sem vírgula viu?

Isso tudo de um blog nos paralelepípedos do dia-a-dia, passou a ser e ocorrer de 2008 em diante, tendo mudança repentina em início de 2011, diminuindo o ritmo de suas publicações que eram semanais... Daí, então a compulsividade reduziu-se sensivelmente, e da minha pessoa que cuida dos meus dedos e da minha índole - que rege meus descritos e esfarrapados garranchos, vulgo crônicas - quase lhe cortei a garganta. E pronto. Passei a me cercear com um certo mais rigor, tachando-me de diletante, pedante, imprudente, inconsequente, moleque, santo e o diabo que fosse e me tirei fora disso de escrever quase todos os dias!

O que era CRÔNICA DE SEGUNDA virou CRÔNICA DE SEGUNDA, TERÇA, QUARTA... E de forma mais razoável, sem morrer por falta de fôlego por ter que escrever incontinentemente e publicar sempre toda segunda o que devia ser agora fico no descompromisso disso e como um artista temporário escritor e poeta mais irregular e impopular do mundo dos vivos eu me sinto então somente de vez em quando escrevo o que quero como quero nesse mundo mando botar fogo ou me nego quantas vezes for necessário e sou mesmo de mim o próprio freguês e usuário e foda-se ponto final na língua.



31 de jan. de 2013

Uma noiva para...


Ninguém me tira da cabeça que eu me perdi indo para Osasco. De trem se chega rápido lá, onde mora minha amiga Risomar Fasanaro, que me “presenteou” com uma noiva... (leitora, logo você entenderá isso) Mas voltando... Me perdi ou fui atacado por algum vírus de Alzheimer no caminho, no que cheguei a pensar que Osasco fosse Guarulhos, ou outra cidade da grande São Paulo. E fiquei muito confuso novamente porque não tenho amigos que moram em Guarulhos e, que eu saiba, para lá não há transporte ferroviário.

Para quem vai de São Paulo a Osasco, se indo de trem, não se vê placa do tipo “Bem- vindo a Osasco”... O “Bem-vindo...” só acontece quando se vai de carro ou de ônibus, dependendo do caminho. Então, eu fiquei perdido de mim, e tive alguma certeza de que não estava indo pra cidade errada somente quando avistei a Estação Presidente Altino. Depois, avistei os prédios em que mora minha citada (acima) amiga Risomar. E pois digo, gosto do mundo de Oz, porque lá tenho sempre bebido água de bons amigos! Com isso, vira e mexe para aquelas bandas me vou, mesmo quando extou (com xis mesmo) indo a ir para outro lugar. No certo, é o que penso.

Mas o assunto que me interessa aqui é outro agora... E voltando vou, pois nele foi que toquei de bico aí em cima, no início. E digo, é sobre a tal da “noiva” ganha por mim em Osasco. Explico: Riso, além de ótima escritora é artista plástica e faz belas pinturas; e com isso, invejado que eu andava de quadros seus presenteados a outros (que mereciam mesmo), fiquei lhe bulindo com uma conversa encostada, acotovelada de risadinhas tolas daquelas que vire e mexe se cutuca e diz: ”e eu?!”, ou “não mereço também, não?!”, ou ainda uma piada contida e até um pouco erudita: “belo, belo quadro, mas não me pertence.”... Nisso fiz doce danado com cara de muxoxo me espezinhando de ciumeira nas ventas toscas de um Serzinho cruel que mirava sem parar a mulher do quadro, ou o quadro com uma mulher que a Riso pintara e já tinha o Dono. Do Rio de Janeiro! o tal dono que já era do quadro! Mas qual, cada um com suas pulgas e seus cachorros (me cutuquei de novo todo... mas aquele já tinha proprietário).

Me torci e contorci de inveja, pois mais, o sujeito nem era de São Paulo... Meu apetitoso bairrismo fez o resto do serviço interno, silencioso; e que de limpo não tinha nada, que pra não estragar isso, psiu, no que pensei daquele quadro que iria pro Rio. Ri-o-de- Ja-neiiii-ro (pensei muito macho de novo)!

Mas vinganças-zinhas toscas, crueldades bobinhas já não tinham o menor sentido...

Segundos depois vi a Riso com o pincel na mão (com a sua simpatia de ser), já desenhando nos ares, com promessas e coisas tais aquele seu quadro que seria o próximo para estancar minha mesquinha embriaguez de irada inveja (dois capitais juntos num só pecado vira um porre). Ah, eu caindo na real, acordado de rápido que fui que tinha que ser, depois dos cinco segundos de embevecimento com a cena do quadro apresentado a mim, e depois sem saber o que dizer à autora do que de belo, de lindo, de tudo magnífico fui e teria a lhe falar, fiquei ali estático com uma cara de peixe (nem vivo nem morto), simplesmente um peixe fora do seu hábito. Risomar não titubeou, me pegou os olhos indo para os seus e me mostrou de pronto que não tardaria, e eu teria o quadro com uma mais bela mulher que já se pintara naquelas paragens de Oz!

Como de magia eu sei que entende, mesmo sem ser mulher de mágicas, dia desses para lá novamente fui chamado, convocado e de logo me botou com os olhos nela: terna, de lábios quase carnudinhos e olhos deliciosos de se comer com as vistas da gente (a marca de Riso, na pintura, estava ali no olhar dela, daquela minha... “Uma noiva para Cacá”. Este é o nome daquela linda pintura).

Pronto: de volta para São Paulo, comigo mais um pedaço de Osasco dos bons... Para sempre levaria, onde fosse comigo nisso, e achar que vou mesmo na vida, assim: estou indo para Osasco, mesmo quando não estou. Indo. Fui.


Fora de órbita

Eu nunca fui à Santa Maria, no Sul, nem conheço ninguém que conheceu algum morto daquela tragédia... Todavia, por lá eu choro como todos choram, como a maioria chora.

E em tempo: a mídia carniceira também vai ter que enterrar os outros mortos das outras tragédias cotidianas e silenciosas. Nas periferias, nos centros... Um dia. Terá que enterrar a todos os outros.




1 de jan. de 2013

Balanço – com o novo




Fazer um balanço no final de cada ano é tão necessário quanto respirar.  E a maioria das pessoas não escreve, não registra, mas pensa, faz suas reflexões, suas conversações interiores e afins, e afins, e afins... E nem preciso dizer que também faço lá as minhas reflexões, pensações... Epa, tô na língua escorregando de boca pra dizer duas em uma - de vez. A coisa que eu quis de pensar e agir num mesmo instante, foi que pensei em resolver isso daqui iniciado, por afinidades e afins, logo! Mas, aí... eu não sei bem, o apres...sado nem come, ás vezes.

Posto o que escrito fica aqui atrás, justificando o que nem pensei ainda direito para inscrever em algum lugar de alguma cabeça, facilitada por aqui, neste espaço quase sem fim. E eu penso comigo que devo muito a este ano que vai se esborrachando das pernas, diminuindo sua respiração, se encolhendo. Devo que não teria em vida, se o caso fosse, dinheiro em espécie para cobrir o que de bom me aconteceu, de pessoas bacanas que por mim passaram, de coisas feitas, boas, boníssimas que me ocorreram em tempo hábil de aproveitamento.

Assim e assado somo no fim das contas, dum total que não tem fim ainda na minha cabeça, até onde posso ver o no infinito de mim, o quanto de lucro tive com isso tudo de 2012 que passou cheio, pleno de bom para comigo e os meus e quanto deveria pagar se credor “definido” houvesse em pessoa de gente. Tudo isso parece oco, de não mencionar com exemplos, de não apontar com dados estatísticos, e ficar só no Bêabá do blá-blá-blá.

Ora, eu traço tudo na cabeça, na risca e penso e vou pensando que tenho domínio das coisas de meus dedos aqui batendo nas teclas... Mas me perco em diminuições quase sempre, em digressões relâmpagos de vãos da cabeça reta de ser pensante em tudo, em quase tudo que for possível de se pensar pra ser. Ah, por agora ando cheio de verbos, cheio.   

E toda vez que quero dizer coisas, desdigo, depois digo, redigo, e me transtorno no fim do dito de mim pra mim. Já tive um monte de ideias, penso que tive... Mas voltando, porque voltando muitas vezes se vai adiante, vai. Eu comecei pensando nos benefícios de 2012, que foi este findado, do que foi bom, do ótimo demais. Mesmo o mais ou menos deste ano foi muiiito melhor do que muitos outros anteriores (e assumo a conta do que falo. Pago sozinho, se o caso for). Agora, do ruim, do péssimo, do paupérrimo do humano do desumanizado deste ano que estendido desandou agora, e aqui jaz, hirto, já em deriva de folha em vento... Disso teria tanto e tanto, mas eu fico por mim que as coisas ruins, muito ruins, todas elas, já estão bem lembradas, e nem precisam de relevo meu agora aqui - que sem importância, pouco farei acrescer.

 Todavia, este ano já iluminado, que os pés em nossa vida põe de agora em diante, de dois mil e treze pra lá de forte, magnânimo, destemido, pleno de luz, de paz e força humana boa em muito vai nos ensinar mais ainda, nos colocar com mais força entre o melhor da vida, para que os rebotalhos de meia dúzia de seres que continuarão a compartilhar da maldade neste mundo, seja sempre bem menor e beeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmmmmmm mais fraco do que a esplendida maioria dos seres desta vida curta e bela que compartilha do bem. Esteja onde estiver.

Agora vamos balançar de alegria. Com o novo.

10 de dez. de 2012

A última parada




Outro dia, num velório no interior aqui de São Paulo, enquanto aguardava o horário do enterro de uma pessoa muitíssima querida de minha sobrinha e nossa, da minha família, fui surpreendido por algo intrigante numa estrutura de ferro e lona (arquitetura?) que protegia a todos de um sol ardente de domingo, naquela Piracicaba tranquila. As pessoas ficam olhando o nada, o vago enquanto se arrumam com o seco de uma lágrima, na espera do momento de se encerrar aquele ciclo da vida... E todos esperam algo que já não virá mais nesse mundo, e esperam, esperam e continuam lá naquele choro do fim.

Nesses episódios de morte e afins não importa coisa de sangue ligando na gente, se há ou não, importa a tristeza exposta, jorrada nos ares. Ademais, a morte é um baque seco e quem está próximo, seja em que circunstância for é atingido. Guardadas as devidas proporções.

Mas voltando no nada do vago dos olhos a esmo num infinito de esperas, de quando se busca ganhar tempo, pra fugir do tédio oco do novamente “nada”, a gente passeia os olhos vagabundos por tudo que há à frente enquanto por ali e lá se vaga. E assim, naquele dia , pego pelo acaso das calças que para Piracicaba me levou por diversas vezes, olhei, re-olhei a cobertura daquele velório acima da minha cabeça... À primeira vista, um galpão, coberto de lona plástica ou vinil, sei lá, bem alto, pra cima de uns sete ou oito mais metros, com as devidas salas de abrigo dos corpos em vela e flores e lágrimas numa das laterais... A área “livre” desse galpão era uma verdadeira plataforma. E olhando bem, a estrutura de ferro que sustentava o tal galpão era formada por hastes de ferros bem distribuídas no seu centro, cujas pontas terminavam em “duas” pontas abertas, “abrindo-se” como asas para segurar aquele telhado que poderia voar a qualquer instante, se uma tempestade daquelas homéricas por ali passasse. Pois bem, essa estrutura me pareceu familiar, muito! Dos meus tempos de Minas lembrei-me, cavando a cova das lembranças...

Outra coisa me chamou atenção, combinando com o restante daquela “plataforma”, eram os bancos de estrutura de ferro e com madeiras envernizadas, distribuídos ao longo daquele abrigo, de forma simétrica, em torno das hastes do centro, como se fossem exatamente os bancos de uma estação de trem. Isso estava claro, como aquele sol que nos iluminava, estávamos, eu e aquele povo todo numa estação de trem! cuja passageira dormia suavemente, calma, hirta, aguardando a sua hora de partida em definitivo.

O que um pobre de um vivo pode oferecer a um morto, me pergunto, como último agrado? Além, é claro, de um caixão, velas e flores... Uma poesia distribuída em colunas de ferros, com asas abertas que sustentam uma lona paupérrima de um velório municipal? Talvez algum olhar distraído como o meu consiga se perder ou desprender num telhado desses. Talvez. E eu pensei no autor, naquele arquiteto - que não descobri ainda o nome – que “com o que tinha na mão”, digamos assim, construiu o máximo com o mínimo. Imagino se lhe dessem mármore e/ou granito.



28 de ago. de 2012

O súbito abrupto súbito

Em 22/09/2008 publiquei aqui neste mesmo espaço o texto abaixo em homenagem ao muito meu amigo Zé Romão... Que bestamente, na data do último dia 26 de agosto, domingo agora subiu para um outro andar, sem dizer coisa de nada explicar. Isso depois de me encontrar no sábado, um dia antes, almoçar comigo e mais uns amigos... E numa modesta homenagem republico-o, que curiosamente (se místico fosse já pensaria coisas) isso se deu também no mês de agosto, completados hoje, quatro anos e seis dias. Salve, Zè! Um Brasileiro.  

Cacá Mendes - SP - 28 de agosto de 2012


Quarenta dias e quarenta noites... Sem chuva


Eu vou pra rua e me atiro nela, estendo lá, derramando o meu todo em qualquer lugar d’alguma calçada e fico lá de papo pro ar, mais que bebendo, embebendo toda água que cair nesse mundo... Esta foi a minha vontade quando me deparei com a chuvinha fina e contínua que caiu na noite do último dia 2 para o dia 3 de agosto em São Paulo. Dancei como dançaria se ainda da tribo fosse, mas fora dela me contive como se contém a civilização, me limitando a me proteger dos pingos... Na verdade tive vontade, depois de quarenta dias e quarenta noites sem chuva, numa cidade seca, de construir mesmo uma arca!

 ( Mas os bichos aqui na cidade de São Paulo são raríssimos, logo meu empreendimento não teria sucesso mesmo, e teria que me contentar com uma arca vazia, encalhada no Tamanduateí ou num Tietê – derretendo, porque ela seria toda revestida de gelo pra nos salvar da secura do calor).

Mas quem trouxe essa chuva não foi a dança dos meus pares ancestrais, e sim, eu acho, o meu patrício que chegara de Minas, trazendo velhas e novas notícias. E atribuo a esse mineiro com alegria porque é do tipo que vive da fartura e está sempre cheirando a mato, capim, leite, café tirado no pé com frutinhos vermelhinhos, água da bica, capoeira e tantas outras coisas daquela natureza... Oh! E chuva lá em Minas Gerais é fartura que dá até debaixo d’água! (E não é querer puxar a reza para os nossos pecados). Porém, se misturo as coisas porque o Zé Romão é um desenervado da vida. A mim já prometeu, que se um dia ganhar dinheiro de fartura, que é o seu jeito de ser com tudo nesse mundo, fará exatamente como se segue, aos olhos do leitor com todas elas, as letras:

 - Quando ficar rico, vou voltar pra nossa terra e descer a rua da igreja, arrastando um pacote de dinheiro, amarrado num barbante. E vou gritar pra todo mundo ouvir: sempre corri atrás de você, e agora vai ter que correr atrás de mim! Dá-lhe!

Mas voltando àquela chuva que não bebi na rua, naquela data de agosto último, que longe vai morrendo porque de primavera minha boca já se enche d’água, só de pensar na estação que nos traz outro trem do tempo... Eu dizia “voltando”, mas nem há que voltar, porque agora a secura do inverno está indo e o Zé Romão (aquele sujeito das farturas) já esteve outra vez por aqui, e assim dispensa dizer o tanto de água que tenho bebido. Arre, espero também que ele faça chover dinheiro, assim, juntos vamos desfilar na nossa terra com uns pacotes de grana correndo atrás de nós. De resto, o leitor já sabe o que faremos. Ou não.



27 de mai. de 2012

Um anjo no hotel

Eu entrei no elevador, depois de longa permanência na recepção onde os caras uniformizados praticamente me despiram para depois me liberarem a entrada naquela torre de vidro, a dois passos da Estação Paulista do Metrô. Me olhei com certa aflição, tentei me disfarçar com o cabelo mal arrumado, mais cara de louco do que de artista, como preferia. E alguém saberia lá que cara tem um artista, sem quadro de pintura em salão de bienal?!

Ansiedade mata qualquer anticristo também, e isso estava me matando no oco daquela imensidão de espelho-espelho-meu, subindo num zirigdum de velocidade estonteante que nunca chegava ao céu do vigésimoputa que pariu sei lá que altura de andar! E fico tonto das cabeças só de pensar... Cheguei, desci, desci, desci, desci mil vezes do elevador paralisado com um pássaro que me levara ao seu reino de voos. Tive sensação que o rei não me permitiria que beijasse as mãos enluvadas da princesa, que fossem, muito menos me deixaria a sós com ela. Mas como não estava louco e nem queria descrer do improvável, desci ao céu do reino e rolei no mármore, como se rola em nuvens.

E aí, o leitor talvez queira saber das verdades disso, e eu que não preciso lhe dar nenhum ouvido ou olhar, por não cobrar a leitura disto em escrito de fato literal, de mentira e verdade de coisas acontecidas se forem; ou não, fico nem aí de irrequieto para dizer se sim ou do contrário. Se disser que é verdade o isso de acontecido, com o vivo deste vivo cara que agora aqui se esparrama em dígito de ideias e ou outras esquesitices crônicas - quase vomitadas letrinhas que foram sopas em cabeça desmiolada de amor, e outros arranjos embriagados psicofísicos, ninguém há de crer. Se disser que é mentira, em tombo de discurso disso tudo que nem vou repetir, vão dizer que não. Então, ficado fica o fico da dúvida de quem achar que não.

Mas de coisa de literatura, gente toda sabe que isso pode picar assim mesmo, como mosquito, e de verdade ninguém precisa saber se, basta que isto se imite de crer. E pronto ...

A porta se abriu e duas mãos em cova me pegaram para dentro, com as palmas delas me alisando de abraços e beijos bem molhados. Entrei tímido com a minha toda vontade incontida, pisando o céu do chão, como se amassasse uvas para um bom vinho. O quarto quase sem luz me esperava com sua arquitetura de nuvens espessas... Eu disse coisas reais no ouvido da mulher que me recebia, fiz-lhe gestos obscenos, belisquei-lhe as nádegas, acendi um cigarro e furei a cortina de organza, como um garoto que procura espaço especial nos corações dos loucos.

Sabia, no dia seguinte talvez eu seria apenas mais um furador de cortinas de organza, ou um sujeito que pensa que pode destruir decorações de hotéis mais ou menos caros. Mesmo assim eu olhei aqueles olhos pela primeira vez, uns que tentavam me conter com deliciosos beijos de afogados. Respiração boca-a-boca nela e ela em mim, precisávamos sair vivos da cena, e os anjos nunca estão dispostos a mostrar a cara e dizerem que nos salvarão para o próximo acidente. Queria mostrar o meu corpo de anticristo a ela, um que não se importaria com nenhuma chaga moralista, insana de todas as igrejas e tendências religiosas. Abri meu coração, e com a ponta dos dedos delicadíssimos delas fui liberando meus músculos, me soltando em golfadas de alegria e sangue incolor, indolor, até que ela pudesse me penetrar no seu ventre e me acolhesse com todo o amor possível.Depois, de súbito, até que pudesse me interromper no grito do meu paraíso mais delicioso. Assim fiquei ali na cama, estendido sob a pouca luz do quarto de cortina de organza furada.

Já era tarde, e fui abraçado com ternura e afeto, e a noite ainda estaria por vir numa madrugada meio fria e lenta de barulho. Tinha que ir, afinal a vida lá embaixo não podia me esperar para a próxima.

Mas sabia nós voltaríamos de vez em quando algum dia toda noite cheia plena e sem vírgula. E ponto.

17 de abr. de 2012

O homem que chegou primeiro

Eu cheguei para cortar o cabelo na mesma moça de sempre, no mesmo salão da Augusta, do baixo Augusta, para o exato de ser. A morena bela, dona da tesoura que me faz a cabeça me sorriu, mas antes de dizer que estava ocupada com o outro cliente, este mesmo se adiantou também sorrindo e disse:

- Cheguei primeiro, vai ter que esperar...

- Ah, sim, sem problemas.

Foi nisso que pude notar quem era o cara que havia “chegado primeiro” na cadeira da minha morena; que não era, não era minha, não era, e é e era somente a minha exímia cabeleireira, sempre. Sim, o homem com uma simpatia contida continuou me sorrindo, e aí então eu disse, ah, é você, claro, sendo você pode ficar, e pensei: este salão anda mesmo muito bem frequentado... Só não saberia por que eu estava ali, olhando o homem com aquela sua fama imensa , meio constrangido, sim, porque havia chegado antes de mim, com uma diferença de um fio. De cabelo.

A morena, a da tesoura, a sensual, a tal do sorriso e de outras simpatias tentava saber dele, se não me conhecia, pois ora, lhe dizia, de mãos abertas co’a tesoura, este meu amiguinho aqui também é de cinema, sim; ali ó, tentava lhe mostrar o outro lado da rua onde ficava o sobrado que abrigava o Centro Cineclubista de São Paulo... Bobagem, ele talvez nunca tenha entendido direito o que ela tentava lhe dizer, e eu cortei-lhe o assunto (com se também tivesse em mãos uma tesoura), me exasperando um pouco, tímido, desconcertado também - afinal melhor fosse que ela ficasse lá cuidando, sossegada daquela cabeça do cinema, porque afinal, a vida lhe tinha pressa
– e fui saindo.

No combinado de sorrisos, meu e dela, que ficamos, foi que eu voltaria dali a algum tempo de minutos. Voltei e o ilustre cliente da minha amiga cabeleireira já havia deixado o salão, no que disse a ela da suma importância de agora então, mais do que nunca deixá-la que pusesse as mãos em minha cabeça para, como se dele transpusesse um pouco da sua celebridade, do seu sucesso, ora. Um minguado cineclubista que eu era e fui, e tento ser ainda que de memória, diante daquele personagem (mais do que personalidade) do mundo do cinema ali, numa Augusta ensolarada, de uma segunda ou terça-feira à tarde, sem escuro, sem nenhuma mágica de luz, com a mais pura verdade dos mortais desse mundo de carne e osso, finitos! Leon Chadarevian em Alepo, ou simplesmente Leon Cakoff, o homem que criou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo sentava na mesma cadeira que eu... Para se deixar cortar os cabelos.

E depois, passado algum tempo, em minutos, perguntei a ela se sabia onde andava passando a tesoura, em que cabelos, em que cabeça, o que me sorriu, simplesmente: ah, sim, ele mexe com cinema, e sempre me arruma convites, e eu disse: ah, sim é verdade, esse cara mexe com cinema. E tem uma cabeça ótima para se cortar cabelos! E sorrimos juntos, ela e eu, sem saber por que tentávamos sorrir, talvez cada um entendendo o que fosse, o que queria, e ele era realmente um homem de poucos cabelos, bem fácil de se cortar.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/989761-critico-leon-cakoff-morre-aos-63-anos-em-sp.shtml

5 de dez. de 2011

As estrelas que me guiam

Ser artista é abrir a própria cova e dormir nela sorrindo todas as noites, vendo as estrelas chegarem todo dia e lamber-lhe a alma, os pés a boca, mas não deixar nem um rastro para a sua realidade do dia seguinte... Ah, se não há comida se inventa, se vira, cara! Seja um exímio cozinheiro, aprenda a fazer banquete com uma batata, um ovo ou dois ovos e uma cebola que sobrou na geladeira vazia e, quente por falta de luz!

Aprenda, seu filho da... de uma.

Ainda, finja toda noite que tua mãe ainda vive e toda manhã lhe trará um naco de leite quente, tirado fresco da vaca do seu peito... Sonhe, sonhe, seu filho da...

Ainda, se não bastar, poderás te encher de atitudes mais radicais, da raiz, se enfiando no lodo das coisas mais bestas desse mundo e gritar de lá que a vida é bela, linda, linda! Mesmo que alguém lhe enrabe com um pau (de madeira, viu!)...

E eu sei, continuo sabendo, a vida bela é a que me guia, na sombra ou no sol. Na alegria ou na tristeza o sonho, o sonho de mais uma batata, uma cebola, um pé de alface, um bife... Ah, se possível uma mulher me sorrindo nos lábios da boca; d’uma de dizer coisas pra se saber da vida? A vida da arte, da música, do teatro e do cinema. Ah, a vida de imitar a gente mesmo, dentro ou fora dela.

Ah, sim, se for possível, mande-me um mar de presente, quando fores ver o horizonte que não visitaste ainda. Confio em você. Beijos.

4 de set. de 2011

As ossadas da cultura (manifesto de ação bem pessoal)



vamos cortar a cultura sangrar a cultura furar a cultura foder a cultura comer a cultura cortar todas as possibilidades da cultura disseminar tudo que possa diminuir a sua importância e arrancar cada olho de artista paupérrimo e tirar-lhe cada eixo de olhar estético usurpar-lhe cada biscoito fino que tente fabricar foras das alçadas (ou ossadas) oficiais e por fim deixar que flua somente as teses dos tolos e das mídias usurpadas pelo poder econômico dos comandos das torres de dólares e ouros imaginários e finalmente renda-se aos fáceis porque assim continuaremos todos consumindo apenas consumindo tão apenas sem pensar sem incomodar àqueles que nos querem rasos rasteiros apenas consumindo sem nenhum exercício de reflexão de pensamento de imaginamento e nada mais precisa-se mesmo sem imaginar sem imaginar sem imaginar nada mais precisa-se mesmo nada mais e assim continuaremos todos buscando o pequeno o miúdo para que eles continuem nas torres de comando

23 de jul. de 2011

Coisa de coice

A primeira vez do cavalo eu nem o vi tão educado lá, naquele minguado espaço do curral, não, não o vi. Cheguei mesmo a cheirar a região daquela parte traseira, muito suada sempre, onde as moscas adoram sentar. Talvez seja o lombo desse animal uma espécie de praia para moscas e outros insetos. Um cavalo será sempre cavalo, num ver-se de perto ou longe? Sim e não, segundo minha modesta cultura acerca dessa animalesca linhagem. Mas o importante que eu queria dizer, seria sobre o coice dele, o chute, a lambada, algo assim bem fora do normal entre seres que não possuem corpo tão avantajado como eles. E coice de cavalo pesa pra cachorro, não pesa?

Voltando ao lombo.

4 de jul. de 2011

Mais uma cena de comuns

Fui outro dia comprar um frango assado numa esquina perto de casa; o moço que cuidava daquela TV de cachorro, como muitos dizem dessa máquina, cantarolava, pegava, cortava, girava, escolhia, oferecia e coisa e tal: qual o senhor quer? Sim, o mais tostado, o mais de assim o menos de mais, o ali, o de o lá, o de o cá. Não, quero aquele, ou esse, ou outro lá de baixo, ou... Espera, me dê aquele de jeito já saindo do espeto, bem fácil pra você, vai. Nada, senhor, qualquer um aqui é qualquer. Mandou, eu pego, corto, pico, embrulho, ponho batata, farofa e ao gosto do freguês, embrulho!

E papo de vem e papo de vai, nisso chega uma senhorinha já bem senhora por demais de uns setenta e poucos da vida, tanto no falar de seus trajes, ou mesmo do enrugado dos seus olhos nos vendo ali, juntos. Todos personagens daquela tela de domingo.

Oh, e eu corto aqui, justo, pra aumentar o meu espaço de escrita e demorar mais o leitor em mim, vendo-me neste decifre de devorar franguito em domingo frio de SP - Para estranhos de fora, não se imagina o que é ir à feira em SP num domingo, sem sol, muito vento entrando por todos os cus da gente. Não se imagine. Não se imagina.

Mas volto à cena com dona senhora, o rapaz e os frangos. Imagine-se, então, creia, veja e leia. Do povo para o povo. E só.

Eu gosto de palavra de todo jeito, saída ou não de boca, escrita, calada, sussurrada, seca, torta, molhada, caída, deitada, em pé, subindo, descendo, pela metade, inteira, ruída, carcomida, cingida, não importa, palavra é palavra, e se nela há coisas a mais, tanto melhor. Dito o disso, e digo, da cena posta comigo e eles lá:

- Como vai a senhora?! Tudo bem, Dona Malfada?! - Naquele instante a senhorinha botou voz entre mim e aquele rapaz no pleno do seu disponível:

- Não, Mafalda.

- ... Dona Mafada (risos)

- Ma-fal-da - Sem risos, quase séria, mas não brava, não mesmo, e dando corda àquele enforcador de nomes.

Ela tinha dois botões de olhos bem vivos, pretinhos, piscantes, e do seu sério num querer sem querer rir, não ria, mas nos deixava numa quase dúvida, se queria ou não o rir. Mas certo estou que gostava de nossas atenções, nossos holofotes pra si, curvando nos seus setenta e tantos de idade pra lá disso, acho; vovó, est’aquela, a Mafalda com nenhuma semelhança com outras. Penso, deduzo.

A Malfada, ou Mafada, ou Malfalda. Ou, Mafalda mesmo. Ou, como quiser quem for.
São Paulo, São Paulo, Brazil

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