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23 de jul. de 2013

Perturbações de ordem genérica

Eu fiz um silêncio e pude observar que ele não teve nem mais nem menos ruído do que os outros de outras vezes. Então eu pensei em  pessoas juntas nas ruas, nos ônibus, de corações todos doidos por outros corações mais doidos ainda... Realmente, a vida é um (grande ou nenhum) mistério: a gente nasce e morre sozinho,  mas nunca quer é se separar dos outros, nunca quer se mover da gente mesmo para um nada de oco qualquer.

Eu digo e sigo eu mesmo, mas sempre penso que junto comigo sozinho eu não sei viver nunca de jamais; isso sem ninguém de ser igual eu mesmo, em carne, flor ou osso, ou espinho que seja mesmo. 

Todo mundo quer ser feliz, quer sorrir, mas muitos acham que isso é motivo de se abrir para o primeiro dinheiro que aparece, ou seja, para o primeiro mármore frio que te encanta? Não, isso lá e aqui (ou lá na pontuação do outro lado mundo que seja) é titubeação de classe: dúvida da sua perfeita divisão de água, de onde começa tua mina e onde começa a mina daquele outro teu vizinho nada igual a você.

Eu digo pra mim que não canso de não aprender, mesmo, eu das coisas burras que me meto... Aprendo e desaprendo nessas idades que vou e volto sempre comigo, que vou ficando de velho e forte de ser eu mesmo, cada vez mais. Querendo somar e dividir e somar de novo pra dividir de novo...  Sou um incauto, sem juízo de um moleque de rua larga e estreita, eu mesmo em carne e osso! Sou?

E assim digo o que eu não sei (o que sempre soube): o sorriso é um encanto tardio? Algo  que, se na hora dele o outro já tiver se fechado, com um soco na própria alma de si mesmo, e pronto, querendo ele te desmanchar do rosto? Não, o sorriso não poderá, por mim e por ninguém ser um encanto tardio, nunca!

Se ela, a tristeza ou a incerteza te pegar antes da hora,  antes da noite; ou se ela te derrubar antes da queda, antes do muro, antes do poço, não se desarrume da cara! fique firme, fique firme, como uma rocha e se cubra de pingos da chuva, e finja-se consigo mesmo: são beijos.

  
  

1 de mai. de 2013

Os Cavalos de Dom Pedro


Eu de ônibus, num domingo desses voltando pra casa, ônibus a 40 km por hora, banlangadan e só no sacolejo da carroça, comigo, dos pés à cabeça. Mas vale lembrar que SP já foi pior de transporte público, muito pior. Ao menos as poltronas atuais deles são almofadinhas, rasas, mas são. Em outros anos era uma coisa de fibra, pra arrebentar o cu do cidadão (com perdão da palavra). Mas voltando no aquele dia que dizia, quando me fugi em digressão... Vamos à cena:

- Queria ver os cavalos de Dom Pedro beber dessa água aí, hoje. Sabia? Naquele tempo eles bebiam dela... - Esse era o motorista do ônibus, falando e olhando em direção ao rio Ipiranga, um que corta o quintal do Museu do mesmo nome, em homenagem ao nosso Dom Pedro I que, daquele grito não morreu, reu, reu.

- Ai, credo!... esse rio tá uma nojeira! imagina... morreriam no primeiro gole... - Essa é a cobradora do ônibus, que agora voltava a se movimentar com o sinal se esverdeando. Abriu. Abriu. O farol.

Eu ri, ri da cena imaginada, com Dom Pedro dando água aos cavalos. Meninos, eu ri.

22 de fev. de 2013

5 anos de blog


Já tive surtos homéricos de escrever muito, compulsivamente, e a cada segunda-feira publicar no meu blog... Corria, cortava, diminuía minha estada em outras atividades, espremia o meu já minguado tempo... para, no blog, botar e botar mesmo que ovo não fosse. Daí eu disse disso não desisto e louco que sou que fico e não me rendo entende e sem vírgula viu?

Isso tudo de um blog nos paralelepípedos do dia-a-dia, passou a ser e ocorrer de 2008 em diante, tendo mudança repentina em início de 2011, diminuindo o ritmo de suas publicações que eram semanais... Daí, então a compulsividade reduziu-se sensivelmente, e da minha pessoa que cuida dos meus dedos e da minha índole - que rege meus descritos e esfarrapados garranchos, vulgo crônicas - quase lhe cortei a garganta. E pronto. Passei a me cercear com um certo mais rigor, tachando-me de diletante, pedante, imprudente, inconsequente, moleque, santo e o diabo que fosse e me tirei fora disso de escrever quase todos os dias!

O que era CRÔNICA DE SEGUNDA virou CRÔNICA DE SEGUNDA, TERÇA, QUARTA... E de forma mais razoável, sem morrer por falta de fôlego por ter que escrever incontinentemente e publicar sempre toda segunda o que devia ser agora fico no descompromisso disso e como um artista temporário escritor e poeta mais irregular e impopular do mundo dos vivos eu me sinto então somente de vez em quando escrevo o que quero como quero nesse mundo mando botar fogo ou me nego quantas vezes for necessário e sou mesmo de mim o próprio freguês e usuário e foda-se ponto final na língua.



31 de jan. de 2013

Uma noiva para...


Ninguém me tira da cabeça que eu me perdi indo para Osasco. De trem se chega rápido lá, onde mora minha amiga Risomar Fasanaro, que me “presenteou” com uma noiva... (leitora, logo você entenderá isso) Mas voltando... Me perdi ou fui atacado por algum vírus de Alzheimer no caminho, no que cheguei a pensar que Osasco fosse Guarulhos, ou outra cidade da grande São Paulo. E fiquei muito confuso novamente porque não tenho amigos que moram em Guarulhos e, que eu saiba, para lá não há transporte ferroviário.

Para quem vai de São Paulo a Osasco, se indo de trem, não se vê placa do tipo “Bem- vindo a Osasco”... O “Bem-vindo...” só acontece quando se vai de carro ou de ônibus, dependendo do caminho. Então, eu fiquei perdido de mim, e tive alguma certeza de que não estava indo pra cidade errada somente quando avistei a Estação Presidente Altino. Depois, avistei os prédios em que mora minha citada (acima) amiga Risomar. E pois digo, gosto do mundo de Oz, porque lá tenho sempre bebido água de bons amigos! Com isso, vira e mexe para aquelas bandas me vou, mesmo quando extou (com xis mesmo) indo a ir para outro lugar. No certo, é o que penso.

Mas o assunto que me interessa aqui é outro agora... E voltando vou, pois nele foi que toquei de bico aí em cima, no início. E digo, é sobre a tal da “noiva” ganha por mim em Osasco. Explico: Riso, além de ótima escritora é artista plástica e faz belas pinturas; e com isso, invejado que eu andava de quadros seus presenteados a outros (que mereciam mesmo), fiquei lhe bulindo com uma conversa encostada, acotovelada de risadinhas tolas daquelas que vire e mexe se cutuca e diz: ”e eu?!”, ou “não mereço também, não?!”, ou ainda uma piada contida e até um pouco erudita: “belo, belo quadro, mas não me pertence.”... Nisso fiz doce danado com cara de muxoxo me espezinhando de ciumeira nas ventas toscas de um Serzinho cruel que mirava sem parar a mulher do quadro, ou o quadro com uma mulher que a Riso pintara e já tinha o Dono. Do Rio de Janeiro! o tal dono que já era do quadro! Mas qual, cada um com suas pulgas e seus cachorros (me cutuquei de novo todo... mas aquele já tinha proprietário).

Me torci e contorci de inveja, pois mais, o sujeito nem era de São Paulo... Meu apetitoso bairrismo fez o resto do serviço interno, silencioso; e que de limpo não tinha nada, que pra não estragar isso, psiu, no que pensei daquele quadro que iria pro Rio. Ri-o-de- Ja-neiiii-ro (pensei muito macho de novo)!

Mas vinganças-zinhas toscas, crueldades bobinhas já não tinham o menor sentido...

Segundos depois vi a Riso com o pincel na mão (com a sua simpatia de ser), já desenhando nos ares, com promessas e coisas tais aquele seu quadro que seria o próximo para estancar minha mesquinha embriaguez de irada inveja (dois capitais juntos num só pecado vira um porre). Ah, eu caindo na real, acordado de rápido que fui que tinha que ser, depois dos cinco segundos de embevecimento com a cena do quadro apresentado a mim, e depois sem saber o que dizer à autora do que de belo, de lindo, de tudo magnífico fui e teria a lhe falar, fiquei ali estático com uma cara de peixe (nem vivo nem morto), simplesmente um peixe fora do seu hábito. Risomar não titubeou, me pegou os olhos indo para os seus e me mostrou de pronto que não tardaria, e eu teria o quadro com uma mais bela mulher que já se pintara naquelas paragens de Oz!

Como de magia eu sei que entende, mesmo sem ser mulher de mágicas, dia desses para lá novamente fui chamado, convocado e de logo me botou com os olhos nela: terna, de lábios quase carnudinhos e olhos deliciosos de se comer com as vistas da gente (a marca de Riso, na pintura, estava ali no olhar dela, daquela minha... “Uma noiva para Cacá”. Este é o nome daquela linda pintura).

Pronto: de volta para São Paulo, comigo mais um pedaço de Osasco dos bons... Para sempre levaria, onde fosse comigo nisso, e achar que vou mesmo na vida, assim: estou indo para Osasco, mesmo quando não estou. Indo. Fui.


Fora de órbita

Eu nunca fui à Santa Maria, no Sul, nem conheço ninguém que conheceu algum morto daquela tragédia... Todavia, por lá eu choro como todos choram, como a maioria chora.

E em tempo: a mídia carniceira também vai ter que enterrar os outros mortos das outras tragédias cotidianas e silenciosas. Nas periferias, nos centros... Um dia. Terá que enterrar a todos os outros.




1 de jan. de 2013

Balanço – com o novo




Fazer um balanço no final de cada ano é tão necessário quanto respirar.  E a maioria das pessoas não escreve, não registra, mas pensa, faz suas reflexões, suas conversações interiores e afins, e afins, e afins... E nem preciso dizer que também faço lá as minhas reflexões, pensações... Epa, tô na língua escorregando de boca pra dizer duas em uma - de vez. A coisa que eu quis de pensar e agir num mesmo instante, foi que pensei em resolver isso daqui iniciado, por afinidades e afins, logo! Mas, aí... eu não sei bem, o apres...sado nem come, ás vezes.

Posto o que escrito fica aqui atrás, justificando o que nem pensei ainda direito para inscrever em algum lugar de alguma cabeça, facilitada por aqui, neste espaço quase sem fim. E eu penso comigo que devo muito a este ano que vai se esborrachando das pernas, diminuindo sua respiração, se encolhendo. Devo que não teria em vida, se o caso fosse, dinheiro em espécie para cobrir o que de bom me aconteceu, de pessoas bacanas que por mim passaram, de coisas feitas, boas, boníssimas que me ocorreram em tempo hábil de aproveitamento.

Assim e assado somo no fim das contas, dum total que não tem fim ainda na minha cabeça, até onde posso ver o no infinito de mim, o quanto de lucro tive com isso tudo de 2012 que passou cheio, pleno de bom para comigo e os meus e quanto deveria pagar se credor “definido” houvesse em pessoa de gente. Tudo isso parece oco, de não mencionar com exemplos, de não apontar com dados estatísticos, e ficar só no Bêabá do blá-blá-blá.

Ora, eu traço tudo na cabeça, na risca e penso e vou pensando que tenho domínio das coisas de meus dedos aqui batendo nas teclas... Mas me perco em diminuições quase sempre, em digressões relâmpagos de vãos da cabeça reta de ser pensante em tudo, em quase tudo que for possível de se pensar pra ser. Ah, por agora ando cheio de verbos, cheio.   

E toda vez que quero dizer coisas, desdigo, depois digo, redigo, e me transtorno no fim do dito de mim pra mim. Já tive um monte de ideias, penso que tive... Mas voltando, porque voltando muitas vezes se vai adiante, vai. Eu comecei pensando nos benefícios de 2012, que foi este findado, do que foi bom, do ótimo demais. Mesmo o mais ou menos deste ano foi muiiito melhor do que muitos outros anteriores (e assumo a conta do que falo. Pago sozinho, se o caso for). Agora, do ruim, do péssimo, do paupérrimo do humano do desumanizado deste ano que estendido desandou agora, e aqui jaz, hirto, já em deriva de folha em vento... Disso teria tanto e tanto, mas eu fico por mim que as coisas ruins, muito ruins, todas elas, já estão bem lembradas, e nem precisam de relevo meu agora aqui - que sem importância, pouco farei acrescer.

 Todavia, este ano já iluminado, que os pés em nossa vida põe de agora em diante, de dois mil e treze pra lá de forte, magnânimo, destemido, pleno de luz, de paz e força humana boa em muito vai nos ensinar mais ainda, nos colocar com mais força entre o melhor da vida, para que os rebotalhos de meia dúzia de seres que continuarão a compartilhar da maldade neste mundo, seja sempre bem menor e beeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmmmmmm mais fraco do que a esplendida maioria dos seres desta vida curta e bela que compartilha do bem. Esteja onde estiver.

Agora vamos balançar de alegria. Com o novo.

10 de dez. de 2012

A última parada




Outro dia, num velório no interior aqui de São Paulo, enquanto aguardava o horário do enterro de uma pessoa muitíssima querida de minha sobrinha e nossa, da minha família, fui surpreendido por algo intrigante numa estrutura de ferro e lona (arquitetura?) que protegia a todos de um sol ardente de domingo, naquela Piracicaba tranquila. As pessoas ficam olhando o nada, o vago enquanto se arrumam com o seco de uma lágrima, na espera do momento de se encerrar aquele ciclo da vida... E todos esperam algo que já não virá mais nesse mundo, e esperam, esperam e continuam lá naquele choro do fim.

Nesses episódios de morte e afins não importa coisa de sangue ligando na gente, se há ou não, importa a tristeza exposta, jorrada nos ares. Ademais, a morte é um baque seco e quem está próximo, seja em que circunstância for é atingido. Guardadas as devidas proporções.

Mas voltando no nada do vago dos olhos a esmo num infinito de esperas, de quando se busca ganhar tempo, pra fugir do tédio oco do novamente “nada”, a gente passeia os olhos vagabundos por tudo que há à frente enquanto por ali e lá se vaga. E assim, naquele dia , pego pelo acaso das calças que para Piracicaba me levou por diversas vezes, olhei, re-olhei a cobertura daquele velório acima da minha cabeça... À primeira vista, um galpão, coberto de lona plástica ou vinil, sei lá, bem alto, pra cima de uns sete ou oito mais metros, com as devidas salas de abrigo dos corpos em vela e flores e lágrimas numa das laterais... A área “livre” desse galpão era uma verdadeira plataforma. E olhando bem, a estrutura de ferro que sustentava o tal galpão era formada por hastes de ferros bem distribuídas no seu centro, cujas pontas terminavam em “duas” pontas abertas, “abrindo-se” como asas para segurar aquele telhado que poderia voar a qualquer instante, se uma tempestade daquelas homéricas por ali passasse. Pois bem, essa estrutura me pareceu familiar, muito! Dos meus tempos de Minas lembrei-me, cavando a cova das lembranças...

Outra coisa me chamou atenção, combinando com o restante daquela “plataforma”, eram os bancos de estrutura de ferro e com madeiras envernizadas, distribuídos ao longo daquele abrigo, de forma simétrica, em torno das hastes do centro, como se fossem exatamente os bancos de uma estação de trem. Isso estava claro, como aquele sol que nos iluminava, estávamos, eu e aquele povo todo numa estação de trem! cuja passageira dormia suavemente, calma, hirta, aguardando a sua hora de partida em definitivo.

O que um pobre de um vivo pode oferecer a um morto, me pergunto, como último agrado? Além, é claro, de um caixão, velas e flores... Uma poesia distribuída em colunas de ferros, com asas abertas que sustentam uma lona paupérrima de um velório municipal? Talvez algum olhar distraído como o meu consiga se perder ou desprender num telhado desses. Talvez. E eu pensei no autor, naquele arquiteto - que não descobri ainda o nome – que “com o que tinha na mão”, digamos assim, construiu o máximo com o mínimo. Imagino se lhe dessem mármore e/ou granito.



28 de ago. de 2012

O súbito abrupto súbito

Em 22/09/2008 publiquei aqui neste mesmo espaço o texto abaixo em homenagem ao muito meu amigo Zé Romão... Que bestamente, na data do último dia 26 de agosto, domingo agora subiu para um outro andar, sem dizer coisa de nada explicar. Isso depois de me encontrar no sábado, um dia antes, almoçar comigo e mais uns amigos... E numa modesta homenagem republico-o, que curiosamente (se místico fosse já pensaria coisas) isso se deu também no mês de agosto, completados hoje, quatro anos e seis dias. Salve, Zè! Um Brasileiro.  

Cacá Mendes - SP - 28 de agosto de 2012


Quarenta dias e quarenta noites... Sem chuva


Eu vou pra rua e me atiro nela, estendo lá, derramando o meu todo em qualquer lugar d’alguma calçada e fico lá de papo pro ar, mais que bebendo, embebendo toda água que cair nesse mundo... Esta foi a minha vontade quando me deparei com a chuvinha fina e contínua que caiu na noite do último dia 2 para o dia 3 de agosto em São Paulo. Dancei como dançaria se ainda da tribo fosse, mas fora dela me contive como se contém a civilização, me limitando a me proteger dos pingos... Na verdade tive vontade, depois de quarenta dias e quarenta noites sem chuva, numa cidade seca, de construir mesmo uma arca!

 ( Mas os bichos aqui na cidade de São Paulo são raríssimos, logo meu empreendimento não teria sucesso mesmo, e teria que me contentar com uma arca vazia, encalhada no Tamanduateí ou num Tietê – derretendo, porque ela seria toda revestida de gelo pra nos salvar da secura do calor).

Mas quem trouxe essa chuva não foi a dança dos meus pares ancestrais, e sim, eu acho, o meu patrício que chegara de Minas, trazendo velhas e novas notícias. E atribuo a esse mineiro com alegria porque é do tipo que vive da fartura e está sempre cheirando a mato, capim, leite, café tirado no pé com frutinhos vermelhinhos, água da bica, capoeira e tantas outras coisas daquela natureza... Oh! E chuva lá em Minas Gerais é fartura que dá até debaixo d’água! (E não é querer puxar a reza para os nossos pecados). Porém, se misturo as coisas porque o Zé Romão é um desenervado da vida. A mim já prometeu, que se um dia ganhar dinheiro de fartura, que é o seu jeito de ser com tudo nesse mundo, fará exatamente como se segue, aos olhos do leitor com todas elas, as letras:

 - Quando ficar rico, vou voltar pra nossa terra e descer a rua da igreja, arrastando um pacote de dinheiro, amarrado num barbante. E vou gritar pra todo mundo ouvir: sempre corri atrás de você, e agora vai ter que correr atrás de mim! Dá-lhe!

Mas voltando àquela chuva que não bebi na rua, naquela data de agosto último, que longe vai morrendo porque de primavera minha boca já se enche d’água, só de pensar na estação que nos traz outro trem do tempo... Eu dizia “voltando”, mas nem há que voltar, porque agora a secura do inverno está indo e o Zé Romão (aquele sujeito das farturas) já esteve outra vez por aqui, e assim dispensa dizer o tanto de água que tenho bebido. Arre, espero também que ele faça chover dinheiro, assim, juntos vamos desfilar na nossa terra com uns pacotes de grana correndo atrás de nós. De resto, o leitor já sabe o que faremos. Ou não.



27 de mai. de 2012

Um anjo no hotel

Eu entrei no elevador, depois de longa permanência na recepção onde os caras uniformizados praticamente me despiram para depois me liberarem a entrada naquela torre de vidro, a dois passos da Estação Paulista do Metrô. Me olhei com certa aflição, tentei me disfarçar com o cabelo mal arrumado, mais cara de louco do que de artista, como preferia. E alguém saberia lá que cara tem um artista, sem quadro de pintura em salão de bienal?!

Ansiedade mata qualquer anticristo também, e isso estava me matando no oco daquela imensidão de espelho-espelho-meu, subindo num zirigdum de velocidade estonteante que nunca chegava ao céu do vigésimoputa que pariu sei lá que altura de andar! E fico tonto das cabeças só de pensar... Cheguei, desci, desci, desci, desci mil vezes do elevador paralisado com um pássaro que me levara ao seu reino de voos. Tive sensação que o rei não me permitiria que beijasse as mãos enluvadas da princesa, que fossem, muito menos me deixaria a sós com ela. Mas como não estava louco e nem queria descrer do improvável, desci ao céu do reino e rolei no mármore, como se rola em nuvens.

E aí, o leitor talvez queira saber das verdades disso, e eu que não preciso lhe dar nenhum ouvido ou olhar, por não cobrar a leitura disto em escrito de fato literal, de mentira e verdade de coisas acontecidas se forem; ou não, fico nem aí de irrequieto para dizer se sim ou do contrário. Se disser que é verdade o isso de acontecido, com o vivo deste vivo cara que agora aqui se esparrama em dígito de ideias e ou outras esquesitices crônicas - quase vomitadas letrinhas que foram sopas em cabeça desmiolada de amor, e outros arranjos embriagados psicofísicos, ninguém há de crer. Se disser que é mentira, em tombo de discurso disso tudo que nem vou repetir, vão dizer que não. Então, ficado fica o fico da dúvida de quem achar que não.

Mas de coisa de literatura, gente toda sabe que isso pode picar assim mesmo, como mosquito, e de verdade ninguém precisa saber se, basta que isto se imite de crer. E pronto ...

A porta se abriu e duas mãos em cova me pegaram para dentro, com as palmas delas me alisando de abraços e beijos bem molhados. Entrei tímido com a minha toda vontade incontida, pisando o céu do chão, como se amassasse uvas para um bom vinho. O quarto quase sem luz me esperava com sua arquitetura de nuvens espessas... Eu disse coisas reais no ouvido da mulher que me recebia, fiz-lhe gestos obscenos, belisquei-lhe as nádegas, acendi um cigarro e furei a cortina de organza, como um garoto que procura espaço especial nos corações dos loucos.

Sabia, no dia seguinte talvez eu seria apenas mais um furador de cortinas de organza, ou um sujeito que pensa que pode destruir decorações de hotéis mais ou menos caros. Mesmo assim eu olhei aqueles olhos pela primeira vez, uns que tentavam me conter com deliciosos beijos de afogados. Respiração boca-a-boca nela e ela em mim, precisávamos sair vivos da cena, e os anjos nunca estão dispostos a mostrar a cara e dizerem que nos salvarão para o próximo acidente. Queria mostrar o meu corpo de anticristo a ela, um que não se importaria com nenhuma chaga moralista, insana de todas as igrejas e tendências religiosas. Abri meu coração, e com a ponta dos dedos delicadíssimos delas fui liberando meus músculos, me soltando em golfadas de alegria e sangue incolor, indolor, até que ela pudesse me penetrar no seu ventre e me acolhesse com todo o amor possível.Depois, de súbito, até que pudesse me interromper no grito do meu paraíso mais delicioso. Assim fiquei ali na cama, estendido sob a pouca luz do quarto de cortina de organza furada.

Já era tarde, e fui abraçado com ternura e afeto, e a noite ainda estaria por vir numa madrugada meio fria e lenta de barulho. Tinha que ir, afinal a vida lá embaixo não podia me esperar para a próxima.

Mas sabia nós voltaríamos de vez em quando algum dia toda noite cheia plena e sem vírgula. E ponto.

17 de abr. de 2012

O homem que chegou primeiro

Eu cheguei para cortar o cabelo na mesma moça de sempre, no mesmo salão da Augusta, do baixo Augusta, para o exato de ser. A morena bela, dona da tesoura que me faz a cabeça me sorriu, mas antes de dizer que estava ocupada com o outro cliente, este mesmo se adiantou também sorrindo e disse:

- Cheguei primeiro, vai ter que esperar...

- Ah, sim, sem problemas.

Foi nisso que pude notar quem era o cara que havia “chegado primeiro” na cadeira da minha morena; que não era, não era minha, não era, e é e era somente a minha exímia cabeleireira, sempre. Sim, o homem com uma simpatia contida continuou me sorrindo, e aí então eu disse, ah, é você, claro, sendo você pode ficar, e pensei: este salão anda mesmo muito bem frequentado... Só não saberia por que eu estava ali, olhando o homem com aquela sua fama imensa , meio constrangido, sim, porque havia chegado antes de mim, com uma diferença de um fio. De cabelo.

A morena, a da tesoura, a sensual, a tal do sorriso e de outras simpatias tentava saber dele, se não me conhecia, pois ora, lhe dizia, de mãos abertas co’a tesoura, este meu amiguinho aqui também é de cinema, sim; ali ó, tentava lhe mostrar o outro lado da rua onde ficava o sobrado que abrigava o Centro Cineclubista de São Paulo... Bobagem, ele talvez nunca tenha entendido direito o que ela tentava lhe dizer, e eu cortei-lhe o assunto (com se também tivesse em mãos uma tesoura), me exasperando um pouco, tímido, desconcertado também - afinal melhor fosse que ela ficasse lá cuidando, sossegada daquela cabeça do cinema, porque afinal, a vida lhe tinha pressa
– e fui saindo.

No combinado de sorrisos, meu e dela, que ficamos, foi que eu voltaria dali a algum tempo de minutos. Voltei e o ilustre cliente da minha amiga cabeleireira já havia deixado o salão, no que disse a ela da suma importância de agora então, mais do que nunca deixá-la que pusesse as mãos em minha cabeça para, como se dele transpusesse um pouco da sua celebridade, do seu sucesso, ora. Um minguado cineclubista que eu era e fui, e tento ser ainda que de memória, diante daquele personagem (mais do que personalidade) do mundo do cinema ali, numa Augusta ensolarada, de uma segunda ou terça-feira à tarde, sem escuro, sem nenhuma mágica de luz, com a mais pura verdade dos mortais desse mundo de carne e osso, finitos! Leon Chadarevian em Alepo, ou simplesmente Leon Cakoff, o homem que criou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo sentava na mesma cadeira que eu... Para se deixar cortar os cabelos.

E depois, passado algum tempo, em minutos, perguntei a ela se sabia onde andava passando a tesoura, em que cabelos, em que cabeça, o que me sorriu, simplesmente: ah, sim, ele mexe com cinema, e sempre me arruma convites, e eu disse: ah, sim é verdade, esse cara mexe com cinema. E tem uma cabeça ótima para se cortar cabelos! E sorrimos juntos, ela e eu, sem saber por que tentávamos sorrir, talvez cada um entendendo o que fosse, o que queria, e ele era realmente um homem de poucos cabelos, bem fácil de se cortar.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/989761-critico-leon-cakoff-morre-aos-63-anos-em-sp.shtml

5 de dez. de 2011

As estrelas que me guiam

Ser artista é abrir a própria cova e dormir nela sorrindo todas as noites, vendo as estrelas chegarem todo dia e lamber-lhe a alma, os pés a boca, mas não deixar nem um rastro para a sua realidade do dia seguinte... Ah, se não há comida se inventa, se vira, cara! Seja um exímio cozinheiro, aprenda a fazer banquete com uma batata, um ovo ou dois ovos e uma cebola que sobrou na geladeira vazia e, quente por falta de luz!

Aprenda, seu filho da... de uma.

Ainda, finja toda noite que tua mãe ainda vive e toda manhã lhe trará um naco de leite quente, tirado fresco da vaca do seu peito... Sonhe, sonhe, seu filho da...

Ainda, se não bastar, poderás te encher de atitudes mais radicais, da raiz, se enfiando no lodo das coisas mais bestas desse mundo e gritar de lá que a vida é bela, linda, linda! Mesmo que alguém lhe enrabe com um pau (de madeira, viu!)...

E eu sei, continuo sabendo, a vida bela é a que me guia, na sombra ou no sol. Na alegria ou na tristeza o sonho, o sonho de mais uma batata, uma cebola, um pé de alface, um bife... Ah, se possível uma mulher me sorrindo nos lábios da boca; d’uma de dizer coisas pra se saber da vida? A vida da arte, da música, do teatro e do cinema. Ah, a vida de imitar a gente mesmo, dentro ou fora dela.

Ah, sim, se for possível, mande-me um mar de presente, quando fores ver o horizonte que não visitaste ainda. Confio em você. Beijos.

4 de set. de 2011

As ossadas da cultura (manifesto de ação bem pessoal)



vamos cortar a cultura sangrar a cultura furar a cultura foder a cultura comer a cultura cortar todas as possibilidades da cultura disseminar tudo que possa diminuir a sua importância e arrancar cada olho de artista paupérrimo e tirar-lhe cada eixo de olhar estético usurpar-lhe cada biscoito fino que tente fabricar foras das alçadas (ou ossadas) oficiais e por fim deixar que flua somente as teses dos tolos e das mídias usurpadas pelo poder econômico dos comandos das torres de dólares e ouros imaginários e finalmente renda-se aos fáceis porque assim continuaremos todos consumindo apenas consumindo tão apenas sem pensar sem incomodar àqueles que nos querem rasos rasteiros apenas consumindo sem nenhum exercício de reflexão de pensamento de imaginamento e nada mais precisa-se mesmo sem imaginar sem imaginar sem imaginar nada mais precisa-se mesmo nada mais e assim continuaremos todos buscando o pequeno o miúdo para que eles continuem nas torres de comando

23 de jul. de 2011

Coisa de coice

A primeira vez do cavalo eu nem o vi tão educado lá, naquele minguado espaço do curral, não, não o vi. Cheguei mesmo a cheirar a região daquela parte traseira, muito suada sempre, onde as moscas adoram sentar. Talvez seja o lombo desse animal uma espécie de praia para moscas e outros insetos. Um cavalo será sempre cavalo, num ver-se de perto ou longe? Sim e não, segundo minha modesta cultura acerca dessa animalesca linhagem. Mas o importante que eu queria dizer, seria sobre o coice dele, o chute, a lambada, algo assim bem fora do normal entre seres que não possuem corpo tão avantajado como eles. E coice de cavalo pesa pra cachorro, não pesa?

Voltando ao lombo.

4 de jul. de 2011

Mais uma cena de comuns

Fui outro dia comprar um frango assado numa esquina perto de casa; o moço que cuidava daquela TV de cachorro, como muitos dizem dessa máquina, cantarolava, pegava, cortava, girava, escolhia, oferecia e coisa e tal: qual o senhor quer? Sim, o mais tostado, o mais de assim o menos de mais, o ali, o de o lá, o de o cá. Não, quero aquele, ou esse, ou outro lá de baixo, ou... Espera, me dê aquele de jeito já saindo do espeto, bem fácil pra você, vai. Nada, senhor, qualquer um aqui é qualquer. Mandou, eu pego, corto, pico, embrulho, ponho batata, farofa e ao gosto do freguês, embrulho!

E papo de vem e papo de vai, nisso chega uma senhorinha já bem senhora por demais de uns setenta e poucos da vida, tanto no falar de seus trajes, ou mesmo do enrugado dos seus olhos nos vendo ali, juntos. Todos personagens daquela tela de domingo.

Oh, e eu corto aqui, justo, pra aumentar o meu espaço de escrita e demorar mais o leitor em mim, vendo-me neste decifre de devorar franguito em domingo frio de SP - Para estranhos de fora, não se imagina o que é ir à feira em SP num domingo, sem sol, muito vento entrando por todos os cus da gente. Não se imagine. Não se imagina.

Mas volto à cena com dona senhora, o rapaz e os frangos. Imagine-se, então, creia, veja e leia. Do povo para o povo. E só.

Eu gosto de palavra de todo jeito, saída ou não de boca, escrita, calada, sussurrada, seca, torta, molhada, caída, deitada, em pé, subindo, descendo, pela metade, inteira, ruída, carcomida, cingida, não importa, palavra é palavra, e se nela há coisas a mais, tanto melhor. Dito o disso, e digo, da cena posta comigo e eles lá:

- Como vai a senhora?! Tudo bem, Dona Malfada?! - Naquele instante a senhorinha botou voz entre mim e aquele rapaz no pleno do seu disponível:

- Não, Mafalda.

- ... Dona Mafada (risos)

- Ma-fal-da - Sem risos, quase séria, mas não brava, não mesmo, e dando corda àquele enforcador de nomes.

Ela tinha dois botões de olhos bem vivos, pretinhos, piscantes, e do seu sério num querer sem querer rir, não ria, mas nos deixava numa quase dúvida, se queria ou não o rir. Mas certo estou que gostava de nossas atenções, nossos holofotes pra si, curvando nos seus setenta e tantos de idade pra lá disso, acho; vovó, est’aquela, a Mafalda com nenhuma semelhança com outras. Penso, deduzo.

A Malfada, ou Mafada, ou Malfalda. Ou, Mafalda mesmo. Ou, como quiser quem for.

17 de jun. de 2011

Eu tomaria uma comigo lá. Sim. Talvez

O boteco, o bar, o estabelecimento, o lugar; um mais parecido com um presépio do coisa, de arrumação dele, algo fora do que nunca vi, desenquadrado, inominável, numa esquininha bem discreta da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. Passo sempre na porta, por lá, como se passasse por uma galeria de deuses...

O teto lá não se vê, se vê nele coisas deslocadas, paralisadas no ar, esvoaçando num vento quase desértico de ermo, num distante do real dos seus frequentadores... Um não lugar de não coisas espalhadas. Poderia descrever aqui os objetos lá expostos, mas acho tarefa um tanto mesmo inútil. De bagos a cabeças de almas de objetocoisas, da vida desgarradas dos seus usos habituais; sobras, ruínas de mimos e estimas do que um dia foram nos imaginários dos catados da vida, e dos tudo que se move nela.

No resumo: no bar do Barba o colecionador é quem chega, quem passa, quem bebe, quem conversa lá nele de bar a bar, no balcão. Cada qual lá monta o seu assunto no exposto como for que será, define seus objetos, seus disses de consigos; diz-se pra si num em verso íntimo e secreto de sim e de não ou talvez: isto é isso com aquilo ou não; eu sei e pronto se será e se vai ser vou ver. Como é. Como são.

As coisas são quando são pra gente, vendo-as em si, ali ou lá, como forem em nossa frente acontecendo de sendo. Serão de pronto o que querermos no verso ou no reverso do que sido pra ser. E será.

Eu vejo nele o que ninguém verá por mim, vendo. Eu vejo, miro, delineio, moldo, soldo, pego, entre e saio. Eu vejo. E fico.

Vendo sempre que por lá passar. O Bar do Barba.

2 de jun. de 2011

Comprando peixe dos outros... (mas só se compra de outros, ué!)

Queria comprar um peixe... Soube pela TV de uma promoção de filé de merluza num super, num híper, num super, num híper, num super.

Comprei logo três pacotes de um quilo cada. Peixe barato... e peixe eu adoro e como pelas ventas até com espinhas e escamas. Ah, me mandem peixes como presente, eu os adoro! Não os como crú, como nossos irmãos japas, mas de todas outras maneira, feitas, é comigo mesmo!

Queixo meu não ficou trincado de caído, mas fiquei pensando nas quantas mãos, nos quantos mares, nos quantos sais e suores para de porem diante de minhas mãos, limpos, lisos, prontos para o meu consumo, o meu prazer.

Sinceridade: aquele gostinho de burlar a suprema vigilância do capital e seus desmedidos lucros, foram por águas... Perdão, no literal, deste quase infame num quase trocadilho.

Que m...rda de globalização!



23 de mai. de 2011

Ele não usava Black- Tie

"Depois eu te mando uma foto
da primeira vez que vi o mar de perto
Estou sensacional"



Eu disse o tal poema com brilho nos olhos e muita saliva nervosa, sendo assistido, ouvido por Gianfrancesco, que me olhava impávido, terno, em olhares vindo da minguada plateia, num teatrinho de beco, digamos assim, na Rua 13 de Maio, no Bexiga. O ano devia ser 1992, talvez.

O por acaso da ilustre presença, que me viu no ver o falar de um poema que dizia do mar, do meu deslumbrar com tantas águas num Atlântico estacionado na Urca, numa bela tarde de Rio de Janeiro, foi coisa de acidente. Eu não tive pernas depois para lhe abraçar como devia, e apenas um apertinho de mão, de coração trêmulo foi de mim a reação. Gianfrancesco era e seria um Guarnieri e tanto ali na minha frente, sem Black- tie, despido da película da fama...

Para quebrar a minha embriaguês, involuntária, uma jovem muito bonita, namorada de um dos seus filhos (não lembro de qual deles), desceu ao palco (a plateia ficava num cimo) e beijou –me a mão, dizendo-se emocionada.

A noite ganha... e perdida ali mesmo num vácuo, sob um orgulho e uma timidez implacáveis que me levavam novamente ao anonimato da minha poesia, da minha carranca travada na cria da vida. E fiquei com aquele abraço grudado em mim, pra sempre, sem entregar a quem de fato seria: um artista genial e simples, tão simples que me ouviu calmamente, e humilde me aplaudiu de pé, como os outros mortais daquela noite, num teatrinho de beco do Bexiga. Na cidade de São Paulo.

15 de mai. de 2011

Inscrito para nada se pensar agora ou nunca

Vamo-nos. Indo.

O corpo reto, andando em rima numa direção qualquer, batendo pernas nos versos, nos miolos... Isso poderia ser o início de uma tragédia ou uma novelinha fresca e virgem, boba. Eu sou o gol para tua bola me partindo ao meio, eu sou o campo aberto para chutes, cabeceadas, goleadas, pernadas. Ah, eu me chuto como Pelé e me disfarço como Edson! Eu sei bem disso me distraindo em conversa boa, saindo pelo cano das veias do meu pescoço torto de olhar-te nua no verso da minha página virada.

Foste o pulo do meu gato no nu do meu pelo indo pelos pardos da noite, caindo pelos telhados. Fui tantas vezes o tolo fabricando-lhe felicidades... Ah, não vais rir muito mais comigo, como riria se ainda eu lhe devesse beijos bem sinceros?! A vida anda me querendo dela pra cavar coisas em cabeças de cavalos, e isso eu vou sim provar até o osso do meu diletante ofício de dançar nos fios desequilibrados das ruas que vão me tecendo por aí. Sou mais que carne. Osso de ruir. Arre.

Em transparente sinceridade, eu procuro copiar do barulhinho de vida das crianças brincando nos parques ou em seus recreios escolares. Elas, as crianças me dizem sempre, se estou ou não vivo. E isso tem me bastado, ainda que eu não escreva ou pronuncie uma linha aproveitável ao dia.

E isso que digo em escrito aqui, agora, derretendo, quero de verdade que não seja nada mais que mentira, seriamente pensada no vão da minha mão enganada. Nada mais que isso. Pura mentira de se pensar como verdade para provocar a mim mesmo indo e vindo nisso de escrever para inscrever.

O que inscrito já fico. Já. Ai.

2 de mai. de 2011

Impossibilidade de civilização

Eu não gosto do metrô, prefiro ônibus porque posso ver as coisas lá fora. No metrô não, a gente não vê nada. Lá ficamos na obrigação de olhar o vazio das pessoas, por fora, ou por dentro. Elas nos olham também, mas são sempre intocáveis, inatingíveis; ou seja, são coisas bastante inócuas, por não provocarem nada de razoável em alguém.

Elas, as pessoas, estão dentro de uma vitrine móvel... Algumas tentam irromper, quebrar, varar, mas há a indiferença do liso, do chapado do vidro, e tacitamente ficam à espera mágica de alguma outra possibilidade por ali. Mas tem a pressa, a urgência da vida, a urgência e tudo precisa ser mesmo muito fast, muito food, no executivo, no factível do frio, do preciso, do liso, do reto.

Reticências aqui.

Tudo que não se precisa numa metrópole é de filósofos! Logo, se você nunca anda de metrô ou nunca andou, esqueça esse seu lado de pensante, nesse tipo de lotação humana, tudo é tão veloz e hermético que pensar não entra, não cabe. Meninos e meninas, preparem-se, eu... vi... Mas já chegamos.

As portas abrem e fecham novamente. Segue-se o rápido, o prático. Se você não vai descer na próxima estação, não fique PARADO na PORRA da região das portas! Que tipo de locução é essa de metódica, plena, fixa, informativa, educativa, orientadora, de gente, hein?! Alguém, por favor, professor se for, poderia me dizer desse ensino diário de se espalhar o comportar nos lugares de gente se pondo, indo-vindo em massa?! Claro, direcionado àqueles que não se educaram no berço ou em escola certa de vida.

Agora vão ter que ouvir sempre, mesmo os já educados...

A voz cibernética do locutor, mormente num som bem tosco e quase sempre fora de controle, soa agressiva, inoportuna, invasora. E destoa, destoa.

Ademais, sei disso porque sinto logo pelo próprio ar que textura nossos olhos, bocas, corpo dentro desses locais subterrâneos desse maravilhoso transporte coletivo... Sei, estou nadando no cu do comum, todavia acho que os arquitetos (dos governos) bem formados que são pouco, não vão pensando nas gentes que se utilizam das suas crias. O metrô é mesmo muito frio, feito para abortar quaisquer tentativas de civilização no seu interior. Já observou como se senta, como se conversa, como se gesticula dentro dos carros ou mesmo dentro das estações? Estamos todos num templo sobre trilhos.

No metrô não corremos (oh que contradição!), não damos passadas fora do nosso rumo, não ziguezagueamos, não alteramos a voz, nunca olhamos nos cimos dos tetos das pessoas. Estamos sempre numa serventia imaginária, plena de prudência, reverência cauta, peculiar, mesmo quando somos os maiores senhores de nós. As lisuras do cimento, do alumínio, do metal, do vidro e a ultra velocidade urgentíssima de se chegar, de se ir, de se atravessar, se arrumar, se encaixar num canto... Ah, a busca por um assento em bancos tão frios como pedaços de mármore! E em horário de picos, Deus sabe lá, a busca de um vãozinho para pôr os pés, se não, vai sem chão mesmo. Voando como é. E digo, ainda bem que é sempre uma viagem rápida. Daí, dói quase nada isso tudo.

22 de abr. de 2011

Que negócio é esse de comunicação?

As várias violências que matam as pessoas delas mesmas, na sociedade, criam sempre grande comoção em outras, em sua maioria. Grande parte da mídia bem vigilante, atenta e cheia de esperanças nos seus faturamentos, redobra sempre os duetos dos agoniados, imprimindo-lhes maiores relevos, maiores cores, vultos. Assim, mesmo sendo que é a crueldade bastante cruel, com a sanha dos donos da voz e da imagem, para os seus ganhos tudo vale a pena: dissecam ao máximo os amargos de cada osso, em sobra, daqueles que servem tão simplesmente de produto/notícia para manhãs, tardes ou noites das famílias brasileiras.

Imaginemos nós, as novelas da Record, as novelas do SBT e mesmo aquelas tais novelas mais "requintadas" (pra não dizer um trocadilho bem idiota) da Globo, já não dão conta das emoções que os seres "normais" precisam consumir! Aí que entram esses Wellingtons para um tipinho de espetáculo (bastante mórbido, claro) que não precisa de atores profissionais, de diretor, bastando tão simplesmente uma locação e uns figurantes/vítimas para VIVEREM a CENA, tendo como protagonista um imbecil de família bastante precária na sua base, dentre outros paupérrimos pré-requisitos. Ademais, de resto, de sobra, de entanto o SISTEMA criador de emoções repercute, envia, reproduz, contamina, replica... e RESOLVE.

Ops! E até eu aqui estou na ONDA... Ah, não!

Assim, esses jovenzinhos mortos naquela tragédia do Rio, tristemente, servem ao MONSTRO da informação; da merdeira de um jornalismo de negócios, numa trama quase messiânica, do além, do pra lá, do lá. Ah, a Comunicação é uma mina, e o garimpeiro não precisa nem ter muita sorte, basta ter quase nada de escrúpulos e muita gana, é isso?

12 de abr. de 2011

Crônica de Segunda, Terça...

Depois de intensa refrega com meus eixos, acabo por decidir que Crônica de Segunda, agora poderá ser de qualquer dia da semana, sem prejuízos aos meus preciosos leitores. Que ainda são poucos, mas fiéis.

Com essa flexibilidade penso que terei mais pempo e tranquilidade para elaborar as crônicas, e com assuntos cada vez mais abrangentes, sem abrir mão do estilo e do caminho que venho traçando nos por aquis. Eia.

Espero que os meus amigos leitores, todos eles que por aqui batem claros olhares pontuais ou não, não se incomodem tanto... e certo estou que será mudança pra boa, creio e todos vão me apoiar.

Por aqui eu fico. Selado. Com todos e por todos.
São Paulo, São Paulo, Brazil

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